Mestre Zuza e a bossa nova
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Mestre Zuza e a bossa nova

O musicólogo Zuza Homem de Melo faz palestra em Santos sobre a bossa nova

Luiz Zanin Oricchio

24 Janeiro 2016 | 21h28

Foto de Maria do Rosário Caetano

Foto de Maria do Rosário Caetano

 

Numa ótima tarde em Santos, mestre Zuza Homem de Melo nos deu uma aula sobre as origens da bossa nova.

Uma aula-show, pode-se dizer, com exposição de sua grande cultura musical, entremeada por canções. Alguns clássicos e gravações raras, tais como a primeira apresentação pública de Garota de Ipanema na boate carioca Au Bon Gourmet, com os autores, Tom e Vinícius, e o intérprete, João Gilberto, cantando, cada um, sua parte de uma introdução inédita, antes de entrar na música propriamente dita. 

Zuza foi ao princípio, ao grau zero da bossa nova, mostrando as diferenças de gravação de Chega de Saudade, por Elizeth Cardoso, acompanhada por João Gilberto, e, depois, num single com João dando a interpretação que tentara, sem sucesso, impor à Divina. É nesse single, o popular bolachão de 78 RPM, que João dá início, para valer, à bossa nova.

Em seguida, vem a canção-manifesto, por assim dizer: Desafinado, em que o trítono, o intervalo proibido (uma quarta justa), coloca-se sobre o verbo “desafino”, como a comentar a estranheza da dissonância. Isso numa canção afinadíssima, em contradição com seu próprio título. Enfim, Samba de uma Nota Só, em que letra e música se entrelaçam uma estrutura única e inseparável, música e palavras comentando-se mutuamente.   

Abordando, em seguida,  temas clássicos da bossa, tais como o famoso (e controverso) concerto no Carnegie Hall, em Nova York, Zuza mostra como, depois desse começo comum, as carreiras de João e Tom tomaram caminhos divergentes.

Com o estabelecimento de João como pai fundador da bossa, a partir de sua “batida” original no violão, Zuza aprofundou-se no exame da carreira de Tom, pinçando aqui e ali obras-primas do maestro e chegando ao ápice no disco com Elis Regina. Em destaque, a valsa em 6/8 Chovendo na Roseira. É também Águas de Março, de melodia simples e harmonia complexa. 

Enfim, uma aula inesquecível, técnica e amorosa, que qualquer pessoa podia entender e não desagradava a quem já conhecesse alguma coisa sobre o assunto. Muito bom mesmo.

Em seguida,houve o agradável show da cantora Rita Lima e sua banda. 

Palestra e show aconteceram no Teatro Guarany, na abertura do Rio-Santos Bossa Nova Fest, que prossegue amanhã com outras apresentações, inclusive da cantora Cris Delanno. É um programaço. Grátis, ainda por cima.

Enquanto Rita cantava, eu pensava cá comigo: “Meu Deus, que gigantesca é a música brasileira…”

Só falta agora o Brasil voltar a merecer a sua música.