Menino da Porteira: um Brasil interiorano e ingênuo
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Menino da Porteira: um Brasil interiorano e ingênuo

Luiz Zanin Oricchio

06 Março 2009 | 13h42

daniel

O diretor Jeremias Moreira Filho não esconde de ninguém que o estímulo para a refilmagem de O Menino da Porteira veio do grande sucesso popular de 2 Filhos de Francisco, até esta semana o recordista desde a retomada do cinema brasileiro, com 5,3 milhões de espectadores (acaba de ser superado por Se Eu Fosse Você 2). “O êxito do filme de Breno Silveira, baseado na história da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano, mostrou que havia um vácuo no mercado brasileiro”, diz. Um “nicho”, segundo os mercadólogos e, no caso, muito específico – o dos filmes ambientados no interior, na zona rural, com sua cultura própria e atrativos contrastantes com valores e imagens do universo urbano.

Jeremias tem prática na coisa. É do ramo. Ele é o mesmo diretor da primeira versão de O Menino da Porteira, de 1976, visto por 4,5 milhões de espectadores, em cifras oficiais. Mas Jeremias precisa: “Muitos pagantes não entraram na contabilidade final da Embrafilme (na verdade, o órgão que apurava os números era o Concine). Acredito que tenha ultrapassado 7 milhões de espectadores, mas não há como provar.”

O fato é que a primeira versão do filme foi um grande sucesso, um daqueles êxitos do interior que, se acreditava, fossem coisas do passado até surgir 2 Filhos de Francisco. Na primeira versão de O Menino da Porteira o mocinho, o boiadeiro Diogo, era vivido por Sérgio Reis. Agora, revive na pele do cantor Daniel. Já seu oponente, o truculento Major, era Joffre Soares, e agora é interpretado por José de Abreu. O papel da mocinha, Maria José Viana na primeira versão, agora é de Vanessa Giácomo.

Esses personagens articulam uma trama simples ambientada no Brasil rural dos anos 50. Diogo é o vaqueiro caladão que conduz boiadas pelo interior. Em Ouro Fino reina o despótico Major Batista, que impõe seu preço ao gado dos pequenos criadores. Estes tentam uma aliança para negociar seus bois diretamente e assim escapar ao controle do Major. O enredo romântico corre por conta da paixão entre Diogo e Juliana (Vanessa Giácomo), enteada do Major. O fio narrativo passa pela figura do menino da porteira, Rodrigo, filho de pequenos criadores locais e título da música-tema do filme, o clássico sertanejo de Luizinho e Teddy Vieira.

Essa a história bastante esquemática que entra em cartaz em 270 salas do País e tenta repetir o sucesso de 30 anos atrás. O filme é bem produzido e conta com fotografia de um bamba no assunto, Pedro Farkas, que busca a paleta interiorana de um artista como Almeida Júnior para compor algumas cenas como se fossem pinturas. O produtor Moracy do Val (que também produziu o primeiro filme) entusiasma-se com o visual: “Eu queria isso mesmo, pradarias imensas, como as de John Ford, que imortalizou Monument Valley com seus filmes.”

Claro, é bom parar por aqui com comparações, mas é verdade que o visual de Menino da Porteira muitas vezes surpreende pela beleza e impacto, em especial em cenas de boiada – “E como é difícil dirigir boi…”, suspira Jeremias Moreira. Só que ninguém vai ao cinema para ver fotografia bonita ou bois em disparada. Para atrair público, o galã é fundamental. Por isso, conta Jeremias, a escolha recaiu sobre Daniel desde que o projeto começou a ficar em pé. A falta de experiência não intimidou o cantor: “Tive um bom treinamento de ator e, afinal, tudo isso que vocês veem no filme é o meu mundo e nele estão todas as minhas referências, gado, cavalo, campo.”

(Caderno 2, 6/3/09)