‘Memórias do Subdesenvolvimento’…de novo e sempre
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‘Memórias do Subdesenvolvimento’…de novo e sempre

É, talvez, a estrutura flexível, ambígua e riquíssima que faz de 'Memórias do Subdesenvolvimento' um “objeto” de difícil apreensão. Uma obra aberta, que nos propõe, a cada vez, novas impressões e outras leituras possíveis.

Luiz Zanin Oricchio

13 Novembro 2017 | 19h03

Ontem foi uma noite muito especial, pelo menos para nós, mas espero que para os outros também. Rô e eu apresentamos, de maneira muito breve, um clássico do cinema latino-americano, Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea. Boa plateia no Cinesesc, para uma sessão que começou quase às 22h de um domingo.

Enfim, sempre é bom rever esse filme. E, enquanto o revia, talvez pela décima vez, pensava: “de onde vem esse encanto, sempre renovado?”

Não há uma resposta única para essa pergunta. Afinal, a alta qualidade da obra, sua fatura, inventividade, sua capacidade de fundir ficção e documentário, sua música, carisma, elenco, etc. bastariam para fazer dele um filme inesquecível e sempre renovado.


Mas não é só. Há uma sequência que resume um pouco o projeto. O protagonista Sergio (Sergio Corrieri) leva sua namorada Elena (Daysi Granados) ao Icaic, o Instituto de Cinema de Cuba. Assistem a alguns trechos de filmes censurados, em companhia do próprio diretor de Memórias do Subdesenvolvimento, Alea. Vêem trechos eróticos, cortados pela censura. “O que você vai fazer com eles?, pergunta Sergio a Alea. Ele responde mais ou menos da seguinte maneira: vai colocá-los num filme em que está pensando e que terá um formato de mosaico, “onde tudo cabe”. Cabe também uma entrevista coletiva da qual participa o próprio Desnoes, autor do livro, ironizado “em off” pela voz narrativa de Sergio. Metalinguagem pura. 

E, de fato, tudo cabe em Memórias. A história central tem seu eixo no pequeno burguês que resolveu ficar em Havana depois da Revolução, quando toda sua família, esposa incluída, resolve se mandar para Miami. Ele fica, não por adesão ao governo de Fidel, mas por curiosidade. Para ver no que vai dar. Talvez fique por preguiça, por cansaço, por tédio. E, ao ficar, será cada vez mais um elemento estranho no ambiente. Um estrangeiro em sua terra. E, então, o contato dessa história, tirada do romance homônimo de Edmundo Desnoes, com L’Étranger, de Albert Camus, ficará evidente.

Seguindo a linha geral, o filme evolui por fragmentos, como um mosaico. Vai e vem no tempo. Cenas se repetem, no âmbito da memória do personagem e no fluxo acelerado da História. Flashbacks mais clássicos mesclam-se a rupturas abruptas na continuidade. O filme é de 1968, mas seu tempo ficcional situa-se entre 1961 e 1962. Uma cultura machista permite que Sergio use como bem deseja as duas moças com as quais se relaciona, a adolescente Elena e uma garota, evangélica, que faz a faxina em sua casa. Enquanto isso, idealiza a namorada de juventude que se mudou para os Estados Unidos e recorda-se, com desprezo e hostilidade, da ex-esposa, também emigrada. Ambas louras. Duas divas nórdicas em país tropical e de população predominantemente negra. 

Esse mosaico emocional do personagem se compõe com outras peças, históricas, como a recordação da tentativa de invasão da Baía dos Porcos e a Crise dos Mísseis, que colocou o mundo à beira de uma guerra nuclear durante o governo Kennedy. O tempo histórico é trepidante, mas Sergio se arrasta por ele como um fantasma. É um protótipo da alienação e, quase por paradoxo, reflete o tempo todo sobre a condição subdesenvolvida da ilha. Não se dá conta da parte que lhe cabe nesse latifúndio.

Seria preciso falar também da trilha do grande músico cubano Leo Brower, trilha desconcertada, quebradiça em alguns momentos, viva e incisiva em outros. Uma trilha para aquele momento efusivo da revolução, mas também para um tempo dilacerado, tenso e cheio de incertezas. Pensem bem: Alea registra os primeiros anos da revolução, mas o faz já do ponto de vista de 1968, quase dez anos depois da derrubada de Fulgêncio Batista. Esse recuo já lhe permite uma perspectiva, que o personagem não tem.  

Enfim, é, talvez, essa estrutura flexível, ambígua e riquíssima que faz de Memórias do Subdesenvolvimento um “objeto cinematográfico” de difícil apreensão. Uma obra aberta, que nos propõe, a cada vez, novas impressões e outras leituras possíveis. Nunca podemos dizer que esgotamos as possibilidades desse caleidoscópio fílmico.

Desta vez, sem querer, atentei de maneira mais concentrada para o substantivo que está em seu título – “subdesenvolvimento”.

Sergio fica em Cuba, entre outras coisas, para ver se a revolução conseguirá corrigir o atraso endêmico da ilha. Logo perde as esperanças. Não há jeito. “Talvez seja o clima tropical. Aqui tudo amadurece e apodrece de modo muito rápido, cedo demais”. A frase é terrível e serve para o nosso Brasil, do qual já se disse que passou da infância à senilidade sem jamais ter atingido a maturidade. Apodrece. Como fruta madura que ninguém colhe e logo passa do ponto.

Por associação de ideias, me lembrei de Paulo Emilio Salles Gomes, que utiliza o mesmo substantivo em seu texto mais célebre: Cinema, uma Trajetória no Subdesenvolvimento. “O subdesenvolvimento não é uma fase, mas um estado de ser”, eis a frase mais dura, contundente e desesperançada do artigo. Não uma etapa a ser superada, com vistas em um desenvolvimento visto de maneira teleológica, como horizonte viável, talvez inevitável. Nada disso. É um pântano, uma areia movediça em que se afunda mais e mais, a cada movimento feito para se livrar. Um destino terrível. Mas inevitável? Implacável? Como responder a tais questões sem cair no desânimo mais completo, ou, pelo contrário, no voluntarismo mais injustificável?

Ficam essas questões, propostas pelo filme.

No mais, é difícil para o espectador identificar-se com Sergio. Seu desprezo pelo povo, seu sentimento de superioridade, a maneira como se relaciona com os outros (e, sobretudo, com as outras), nada disso indica uma pessoa simpática. No entanto, por vezes nos vemos em sua desesperança. É um homem que se esvazia cada vez mais de si mesmo e portanto digno de piedade. Numa das cenas finais, vamos vê-lo caminhando só, enquanto as ondas explodem no Malecón de Havana. Em torno dele, um país que se prepara para a guerra. E as câmeras escrutam essa cidade das alturas, de maneira silenciosa, ou acompanhada pela dissonância musical proposta por Brower. Me lembrei das cenas finais de O Eclipse, de Michelangelo Antonioni. 

Assistimos a tudo com distanciamento e emoção. E como se conciliam esses dois extremos da experiência cinematográfica? Bem, essa é outra questão, que fica para outra reflexão.

 

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