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Marco de época: Suplemento Literário do Estado

Luiz Fernando Zanin Oricchio

18 Novembro 2007 | 11h55

Amigos, leiam abaixo a entrevista que João Luiz Sampaio e eu fizemos com Elizabeth Lorenzotti, autora de Suplemento Literário – Que Falta ele Faz!, lançado pela Imprensa Oficial. O livro é uma bela reflexão sobre um paradigma do jornalismo cultural brasileiro.

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Que Falta Ele Faz! É esse o significativo subtítulo do livro de Elizabeth Lorenzotti sobre o Suplemento Literário do Estado de S. Paulo, marco do jornalismo cultural brasileiro que circulou de 6 de outubro de 1956 a 17 de dezembro de 1966, deixando um legado de textos até hoje atuais e saudades em leitores e colaboradores. O estudo de Elizabeth, porém, não se quer saudosista ou nostálgico. A pesquisadora entende que a compreensão daquele que foi um modelo de excelência no passado pode servir de inspiração para o presente, mesmo que seja neste mundo veloz de hoje.

Idealizado por Antonio Candido e dirigido por Décio de Almeida Prado, o Suplemento Literário mantinha em seu quadro de colaboradores fixos nomes como Wilson Martins, Paulo Emilio Salles Gomes, Ruy Coelho e Lívio Xavier, autores que se tornaram paradigmas em suas áreas de atuação específicas – a crítica literária, a cinematográfica, a antropologia, etc. Um dos segredos do SL foi fazer de suas páginas ponto de encontro dos maiores talentos de uma geração.

Suplemento Literário – Que Falta Ele Faz! (Imprensa Oficial, 208 págs., R$ 40) traz um histórico da publicação e das condições sociais e culturais na época da sua aparição. Inclui entrevista inédita com Antonio Candido e uma cópia do projeto inicial do suplemento apresentado a Julio de Mesquita Neto, então diretor do jornal. E, sim, a cereja no bolo – um conto do então candidato a escritor Francisco Buarque de Holanda. O autor de Estorvo, na época já famoso como cantor e compositor de A Banda, era um neófito como ficcionista. Estreou no Suplemento Literário, com um conto chamado Ulisses, na edição de 30 de julho de 1966. Abaixo, trechos da entrevista com Elizabeth Lorenzotti.

A sra. lembra que uma das características principais do Suplemento Literário era sua autodefinição como “suplemento artístico e não jornalístico”. O que significava isso?

Já existia no jornal uma seção, Letras e Artes, dedicada basicamente ao noticiário jornalístico. O Suplemento, desde o projeto de Antonio Candido identificado como Suplemento Literário e Artístico d’O Estado de S. Paulo, pretendia ser uma pequena revista semanal de cultura. Mas já no plano inicial, Candido frisava que se devia evitar dois extremos, “o tom excessivamente jornalístico e o tom excessivamente erudito”. O primeiro, porque não pesaria na opinião, não contribuiria para criar hábitos intelectuais, não colocaria o leitor em contato com o pensamento literário; o segundo, porque seria de leitura penosa. Considerava que quase não havia revistas literárias no Brasil, e os suplementos de jornais funcionavam como sucedâneos delas. O texto de apresentação do primeiro número frisava: “O Suplemento não será jornalístico, nem no alto nem no baixo sentido do termo.” E continuava Décio de Almeida Prado: “O jornal, por definição, por decorrência, poder-se-ia dizer, da própria etimologia da palavra, vive dos assuntos do dia (…) A perspectiva do Suplemento tinha, pois, de ser outra, mais desapegada da atualidade, mais próxima da revista que, visando sobretudo a permanência, pode dar-se ao luxo de considerar mais vital a crônica dos amores de um rapaz de 18 e uma menina de 15 anos na Verona pré-renascentista, do que qualquer fato de última hora, pelo motivo de que as crises, as guerras, até os impérios, passam com bem maior rapidez que os mitos literários, muitos dos quais vêm acompanhando e nutrindo a civilização ocidental há pelo menos 30 séculos.” Essa concepção não é de fácil assimilação para nós hoje, o que já acontecia na época, aliás. O próprio Décio, em entrevista de 1997, afirmava que existiam reclamações , “dizia-se que não era jornalístico, que falava de coisas que não interessavam ao leitor comum”. Mas na verdade interessaram muito a quem estava de alguma forma ligado às letras, às artes plásticas, à música, ao cinema, ao teatro, à dança. Encontrei e encontro pessoas que mantêm coleções do Suplemento em casa, que estudaram nele e o utilizaram para dar aulas.

Qual acha que foi o papel do Suplemento Literário na efervescência da vida cultural da época? Ele a influenciou ou foi apenas reflexo de uma época também bastante rica? Qual o papel do SL ao lado de outros suplementos, como o do Jornal do Brasil, por exemplo?

Creio que o Suplemento Literário foi uma via de duas mãos: influenciou e refletiu essa época rica de desenvolvimento em todos os setores da vida do País. Com seu projeto (equilibrado, como diz Antonio Candido, entre a tradição e a inovação) refletindo a discrição e a sobriedade de seus idealizadores, conseguiu dar uma idéia do panorama nos Estados, sem descuidar-se do foco internacional. Aliás, acompanhar o que acontecia nas artes e nas letras do exterior foi uma das grandes contribuições do Suplemento, numa época em que a tecnologia das comunicações ainda engatinhava. O Suplemento Dominical do Jornal do Brasil teve igual importância. Entretanto, era uma publicação de combate, de movimentos. O SL realizou uma fórmula paulista, com um tom universitário. Como diz Antonio Candido, acolheu a vanguarda, mas esteve sempre ligado a uma espécie de linha média das concepções literárias.

Em que medida seria possível pensar a vida cultural de São Paulo tomando como ponto de partida e de referência a criação e o desenvolvimento do projeto do SL?

A São Paulo de fins dos anos 50 era uma cidade que ainda não se descentralizara. Até a segunda metade dos anos 1960, no grande quadrilátero formado pelas avenidas Angélica, Brigadeiro Luiz Antônio, Paulista e São João, concentravam-se não apenas comércio e serviços, como sobretudo os principais equipamentos culturais da cidade: universidades, bibliotecas, teatros, cinemas, livrarias, redações e sucursais de jornais, etc. Intelectuais, artistas, jornalistas encontravam-se no barzinho do MAM, na Rua Sete de Abril, instalado no mesmo endereço do Masp, fundado um pouco antes, em 1947, por Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi. Desde a década de 50, a redação do Estadão ficava na Rua Major Quedinho; na Alameda Barão de Limeira, o grupo Folha; na Rua João Adolfo, a Editora Abril; mais tarde, na Avenida São Luís, as sucursais de O Globo e Jornal do Brasil. Ainda no centro velho, as agências internacionais; na Nestor Pestana, o auditório da TV Excelsior. E, claro, as livrarias, nas imediações da Biblioteca Mário de Andrade. Subindo um pouco a Consolação, a Filosofia da USP, na Rua Maria Antônia. Esse ambiente cultural – que vinha da Semana de Arte Moderna de 1922, dos anos 30, com a criação do Departamento de Cultura; do TBC, da Vera Cruz, nos anos 40, da revista Clima – do mesmo grupo de estudantes da USP que se tornariam os colaboradores do SL; dos museus, das bienais – alcançou a década de 60 ampliado, transformado, evoluído, assim como a cidade que crescia, não era mais uma província. A redação do SL era um centro animado de discussões. E o Suplemento, um veículo transmissor de idéias, um intermediário, um mediador cultural que teve seu importante papel na reflexão e na difusão da crítica cultural da cidade e do País.

Se o livro se preocupa em mostrar que o Suplemento Literário é fruto de uma época, de um momento específico, será que cabe a nostalgia que perpassa o texto, desde o título (Que Falta Ele Faz!), e a tentativa de julgar os cadernos culturais atuais tendo o SL como referência?

O título foi sugerido pelo artista Tide Hellmeister, que fez a capa do livro, ele mesmo um ex-colaborador do Suplemento. Tide traduziu o sentimento da maioria das pessoas com as quais falei. Na verdade, esta é uma preocupação minha com a recepção do livro: pensarem que se trata de algo nostálgico, um carro com os faróis voltados para trás, que de nada vale para jogar luz na nossa acidentada estrada do século 21. Não! Resgatar a história serve e servirá sempre para iluminarmos o presente e o futuro. E, sempre à luz do espírito crítico, clarear, recuperar experiências boas ou más, peneirar, transformá-las. Não é verdade que o leitor de hoje não gosta e/ou não tem tempo de ler textos mais reflexivos, densos e, portanto, maiores. Vivemos um tempo em que as pessoas estão ávidas por saídas, e saída só se encontra pensando e lendo o que pensa o outro. Arte e cultura não são separadas da vida, não constituem só uma indústria. São legados imemoriais. A mídia, que tanta responsabilidade carrega, tem o dever de rever sua história e abrir mentes e corações para novas experiências que ajudem o homem a se tornar mais humano.

O SL poderia ter-se adaptado à nova época ou seu fim era inexorável? Quais seriam as possibilidade, hoje, de um caderno cultural de mesmo nível, adaptado à realidade do presente? Ou, mudando o enfoque da questão: a sra. acha que o SL pode servir como inspiração para o jornalismo cultural de hoje, sem que se caia na nostalgia, sempre paralisante, dos “bons tempos” e de uma época de ouro que já passou e não volta mais?

O Suplemento cumpriu o seu papel na sua época. Poderia, sim, ter se adaptado aos novos tempos, se as mudanças não tivessem se imposto, no jornalismo, na tecnologia, na economia, na política, na chamada indústria cultural, no País, no mundo enfim, de forma tão abrupta. Não tenho dúvida de que essa experiência pode ser retomada. Não tenho dúvida de que grupos de pessoas podem transformar radicalmente as coisas em qualquer setor da vida humana. E para melhor. Algo se perderia em moeda? Talvez sim, talvez não. Mas certamente muito se conquistaria em reflexão, pensamento crítico, maior compreensão e contribuição para a cultura que, no fim, significa maior contribuição ao esclarecimento e à ampliação de horizontes de leitores que, sim, agradeceriam. A internet é um veículo que conquista, cada vez mais, possibilidades para várias experiências. Setores representativos do pensamento de várias correntes da sociedade e de seus múltiplos movimentos culturais também abrem seus caminhos em publicações próprias, mostrando aspectos que quase nunca chegam à chamada grande imprensa. Mais cedo ou mais tarde os jornais trilharão o caminho, já apontado por especialistas há algum tempo, da análise, da opinião, da crítica, enquanto a notícia ficará por conta de veículos mais ágeis. E que papel importante esse, o da reflexão e do reconhecimento da pluralidade. É quando uma experiência como a do Suplemento Literário poderá ser resgatada, em papel, que é muito melhor de se ler, reunindo os novos críticos e pensadores da literatura, do cinema, do teatro, das artes e os que já trilharam várias estradas, para repassarem sua experiência.

(Estadão, Cultura, 11/11/07)