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Maratona latina

Luiz Zanin Oricchio

28 Julho 2007 | 22h32

Tenho aproveitado bem o Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo. Vi um Buñuel raro, A Jovem, da fase mexicana. Vi, aliás, vários outros filmes que não conhecia, ou só por ouvir falar, casos de Barroco, de Paul Leduc, Iawar Mallku, de Jorge Sanjinés, e, em especial, O Chacal de Nahueltoro, de Miguel Littín, que é mesmo tudo aquilo que meu colega Luiz Carlos Merten sempre disse que era.

Engraçado que, na saída do Chacal, conversamos com o cineasta João Batista de Andrade, o curador da mostra. Ele disse que via pontos de semelhança entre a história do criminoso chileno, julgado e condenado à morte, e o seu documentário Wilsinho Galiléia, sobre um matador de periferia. Littín não conhecia o trabalho de João Batista e vice-versa, mas, mesmo assim, mostram preocupações semelhantes e, mais do que isso, pontos de aproximações formais em suas obras.

Como pode ser? É que havia, naquela época uma – se me permitem o termo – “intertextualidade” entre os cineastas do continente, que trocavam idéias, textos e manifestos, e polemizavam entre si, mesmo que indiretamente ou por vozes interpostas. Isso não existe mais.

Enfim, tem sido ótimo ir ao Memorial da América Latina, nestes dias de frio e chuva em São Paulo, e vê-lo lotado de rostos jovens, interessados nesse tipo de cinema que não tem vez no circuito comercial. E não tem vez porque os exibidores garantem que não existe ninguém que se interessa por esses filmes.

Bem, a boa notícia é que, ao que tudo indica, o festival, que está em sua segunda edição, pegou e vai continuar nos próximos anos. Foi o que deu a entender em conversa conosco o presidente da Fundação Memorial da América Latina, Fernando Leça. Há planos, também, para construção de duas salas de cinema permanentes no Memorial, para abrigar projeções de filmes latino-americanos o ano todo. Fazemos votos para que tudo isso se concretize. Quanto mais espaços alternativos houver no Brasil, melhor para todos nós.

O festival acaba hoje (domingo, 29) e ainda há chance de ver alguns filmes bem interessantes. Destaco Frida, Natureza Vida, de Paul Leduc, que fecha o festival às 19h, no Memorial, antes da premiação. Lá mesmo, às 13h, há o documentário Etnocídio, também de Leduc, muitíssimo bom, embora em cópia sofrível. Às 19h, também no Memorial, reprisa-se o clássico de Fernando Birri, Os Inundados e, lá mesmo, às 17 outro clássico, este cubano, A Primeira Carga de Machete, de Manuel Octávio Gómez. São programas imperdíveis para quem gosta do bom cinema, tout court.

E, sim, uma última chance para ver O Chacal de Nahueltoro, às 22h deste domingo, desta vez no Cine Sesc, lá na rua Augusta. Não perca. É nunca menos que sublime.