Mais algumas palavras sobre Ouro Preto e o Cine OP
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Mais algumas palavras sobre Ouro Preto e o Cine OP

Luiz Fernando Zanin Oricchio

30 Junho 2017 | 19h23

No Cine Vila Rica

Embora já esteja há dias em São Paulo – e agora Santos – preciso ainda dar um fecho na passagem pela Cine OP, a Mostra de Ouro Preto.

É preciso dizer que este é um festival diferente dos outros. Primeiro, porque seu foco está na recuperação e preservação da memória do cinema. Algo não muito popular num país com Alzheimer precoce como o nosso.

Segundo, não tem mostra competitiva. Não tem um “vencedor”, como os outros festivais, o que desestimula a cobertura da mídia. Se não há quem ganhou ou quem perdeu de que vale cobrir? Esse é o raciocínio. Bom, pior para a mídia, porque, é evidente, existem coisas muito mais importantes na vida do que vencer ou perder uma disputa, ainda mais em área artística e de cultura.

Mas a Cine OP parece lixar-se para isso. Mantém sua base reflexiva, dividindo-a em três segmentos, a preservação, a História e a Educação.

As manhãs e tardes são ocupadas, em especial, por seminários, muito bem organizados e reunindo gente preparada. Para quem acha que o Brasil é um país primitivo, de alto a baixo, uma visita à Cine OP faria bem. Temos gente pensando em alto nível os grandes problemas do país. E de uma perspectiva histórica, que sabe tirar as consequências do passado para o presente. Aprende-se muito por aqui.

Para Yxapi: palestrante

O foco deste ano foi a questão ameríndia. As atenções voltaram-se para ensaístas e pesquisadores da tragédia indígena. Os próprios índios estiveram aqui. Eles pensam a seu próprio respeito e filmam-se. Ouvi-os e vi os filmes que fazem, alguns muito, mas muito interessantes mesmo. Para citar um, fico com Já me Transformei em Imagem, de Zezinho Yube.

Se uma estrela brilhou foi a de Vincent Carelli, cujo coletivo Vídeo nas Aldeias completou 30 anos de existência. Há pouco, tiveram de deixar a casa que os abrigava, em Olinda, por impossibilidade de pagar o aluguel. É coisa de gente idealista que, sim senhor, ainda existe no Brasil. Carelli participou de uma badalada mesa de discussão e teve seu longa mais recente, Martírio, projetado no telão da Praça Tiradentes, onde se monta o cinema ao ar livre. É um filme histórico – nos dois sentidos do termo – sobre o genocídio dos Guarani-Kaiowá. Concorreu no Festival de Brasília do ano passado, mas o júri fechou os olhos para suas qualidades. Ganhou o prêmio do público. É uma obra incontornável sobre a questão e tem amealhado ótima fortuna crítica, fora dos jornais é claro.  

Quem acompanha a vida real sabe que as políticas indigenistas correm alto risco dado o poder alcançado pela bancada ruralista no Congresso. Esta não apenas favorece golpes contra inimigos políticos como não apresenta qualquer preocupação com o futuro. Pensa pelo lucro imediato e faz a opção pela terra arrasada. Se índios estiverem pelo caminho, serão eliminados. Essa questão urgente – pois nada é mais urgente que a vida humana – esteve presente em todos os debates, como tema principal ou pano de fundo.

Em Ouro Preto, mais uma vez notei o contraste entre um ambiente predominantemente progressista e de viés humanista, que ainda domina o campo da cultura e do saber, e a boçalidade que impera no resto do país. Claro que existe uma nova direita, predatória e toda assanhada, que vem se insinuando por aí. Mas ela ainda é estrangeira em determinados ambientes, não se sabe ainda por quanto tempo. Em todo caso, nesses lugares de cultura ainda se preservam valores humanistas, cada vez mais sob cerco.

No Museu do Oratório, Igreja do Carmo

Ouro Preto é a moldura ideal para que essas ideias de luzes e sofisticação sejam veiculadas. Local histórico da Inconfidência Mineira, influenciada pelas ideias da Revolução Francesa, a antiga Vila Rica é uma joia arquitetônica viva e pulsante. Conserva o centro histórico e o casario original, proeza no país da depredação do meio ambiente e da história.

Muito disso se deve ao mineiro Rodrigo Melo Franco de Andrade, idealizador do Serviço do Patrimônio Histórico e seu diretor por 30 anos. Rodrigo é pai do cineasta Joaquim Pedro de Andrade (de O Padre e a Moça, Os Inconfidentes e Macunaíma) e avô da também cineasta Alice de Andrade, filha de Joaquim. Encontramos com Alice na cidade (estava lá para apresentar seu documentário 20 anos, sobre sua experiência cubana) e ela nos abriu a casa do avô, uma maravilha arquitetônica, restaurada por Lúcio Costa em 1940. Possui ainda um mural de Guignard, Marília de Dirceu, em restauro, protegido por adesivos. Foi uma visita emocionante. Assim como foi tocante a visita ao Museu de Oratórios, anexo à Igreja do Carmo. E também o concerto que ouvimos na Casa da Ópera, com a Orquestra de Ouro Branco. O teatro é o mais antigo em atividade na América do Sul e foi inaugurado em 1770.

Igreja de São Francisco de Paula: Aleijadinho

Enfim, a passagem por Ouro Preto foi um bálsamo para quem anda saturado deste Brasil brutal em que vivemos atualmente.

Por fim, como sempre, fui bater ponto na Igreja de São Francisco de Paula, obra do Aleijadinho. Queria entrar para rever o teto de Athayde, mas estava fechada. Por fora, já é um espetáculo. Uma epifania arquitetônica.