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Listas, para que fazê-las?

Luiz Zanin Oricchio

23 Junho 2007 | 13h46

Depois da lista dos cem maiores filmes americanos de todos os tempos (segundo a votação do American Film Institute) resolvi, talvez em má hora, colocar no blog a minha própria lista. Que lista é essa? Nem sei direito. Encontrei-a vasculhando o computador em busca de outra coisa (computadores são formidáveis latas de lixo, cemitérios de textos e outras surpresas). Quem a encomendou? Não me lembro. Talvez a tenha feito para uma dessas infindáveis pesquisas que encomendaram aos críticos em 1995, quando o cinema completava cem anos de idade. Efemérides são assim. Passam e, ao contrário do que significa a palavra, não deixam rastro de memória.

De qualquer forma, suspeito que seja uma lista boa, e bastante guiada pelo coração, pela experiência de cinéfilo. Explico. Quando pedem uma lista a um crítico, ele, em geral, segue critérios pessoais, mas também atende a exigências profissionais. Assim, por exemplo, não “fica bem” deixar de fora um dos pais fundadores da linguagem cinematográfica como Griffith. Todos nós vimos os filmes de Griffith, como Intolerância e Nascimento de uma Nação. São fundamentais, do ponto de vista histórico, do estabelecimento da linguagem cinematográfica, mas acho difícil dizer que causam um real prazer ao espectador contemporâneo. Deixei-os de lado, sem remorso.

Concentrei-me em meus diretores favoritos. Quem são? Welles, certo, mas sobretudo gente como Fellini, Buñuel, Antonioni, Bergman. De Fellini, poderia ter botado quase a obra toda, mas Federico deixou pelo menos três obras-primas, Oito e Meio, A Doce Vida e Amarcord. Dói no coração omitir A Estrada da Vida, Roma, e tantos outros. Buñuel? O Anjo Exterminador, Viridiana, Os Esquecidos, e toda a fase francesa. Antonioni? Toda a trilogia da solidão: A Noite, A Aventura, O Eclipse. Só? Não, outro dia revi Passageiro: Profissão Repórter, filme extraordinário. Aliás, durante algum tempo a Itália fez o maior cinema do mundo, daí a profusão de obras-primas que se concentram no mesmo período e espaço geográfico.

Acolhi o Eisenstein que mais amo, Encouraçado Potemkim, que revi recentemente em cópia nova e me arrepiou mais uma vez. Poderia ter colocado Outubro também, mas Potemkim me diz mais. Mas por que não coloquei o Dovchenko de A Terra? Botei Terra em Transe e Memórias do Subdesenvolvimento, os dois maiores filmes latino-americanos já feitos. Mas não é um pecado deixar de fora Deus e o Diabo na Terra do Sol, Os Fuzis, Vidas Secas e tantos outros?

Bergman, para mim, é um deus. Nunca vou esquecer da impressão que tive ao ver pela primeira vez (em cópia estropiada, num cineclube do Bexiga) um filme como Morangos Silvestres. Eu era bem jovem e me lembro de ter pensado coisa parecida como “então o cinema é capaz disso, de tudo isso?”. Uma revelação. No entanto, de Bergman coloquei Persona, que me parece mais completo, complexo e me deixou mais chapado ainda. Mas como deixar de fora também Gritos e Sussurros, talvez a maior aproximação feita pelo cinema dessa coisa impalpável chamada alma humana? Ou tantos outros do mestre sueco?

Levei pau porque esqueci o cinema inglês e, de fato, Losey é extraordinário. Mas não cabia. Como não cabiam Almodóvar e Kusturica. O visitante cita Underground (para mim o melhor Kusturica) e Fale com Ela, um Almodóvar impactante, que vi em 2002 em Madri e nos deixou (a mim e minha mulher) tão extasiados que não trocamos uma única palavra na nossa volta a pé ao hotel na Gran Via. Só fomos falar dele no dia seguinte. Que filme, meu Deus! E, no entanto, não entrou. Como não entrou também uma parte do grande cinema japonês, Mizogushi e Ozu, principalmente, que adoro. Cadê o expressionismo alemão? E o grande cinema americano? Onde estão Huston, Nick Ray, Kubrick, Coppola, por quem tenho devoção por causa da trilogia dos Chefões? Falta de espaço.

Por que não incluí Roma – Cidade Aberta, que é o marco do neo-realismo? Simples, porque gosto mais de outro Rossellini, Viagem à Itália. O frescor cinematográfico da nouvelle vague não é melhor representado por Acossado, filme que adoro? É, mas Viver a Vida é um Godard que me impressiona mais. E assim por diante.

Listas são assim. Não comportam grande coisa, a não ser que nos estendamos demais – os melhores cem, os melhores duzentos, trezentos, e assim por diante. Alguma coisa sempre há de ficar de fora. Incompletas por definição, as listas são feitas apenas para nos ajudar a pensar. Delimitamos um número restrito, e essa limitação funciona como uma espécie de laboratório. Quais as nossas influências maiores, formadoras de gosto, da maneira como vemos o cinema? Qual a matriz, o núcleo duro do nosso gosto cinematográfico? Eis o que essas listas podem fazer por nós. E talvez por nossos eventuais leitores.

Se eu fosse fazer uma lista “profissionalmente correta”, teria de me exigir o critério histórico, a diversidade geográfica e temporal. Citaria filmes historicamente importantes, mesmo que não gostasse tanto deles, incluiria filmes de países diferentes e de épocas distintas, trazendo a minha lista até os dias de hoje, para contentar a moçada que acha que o cinema foi inventado por Ridley Scott em Blade Runner, ou talvez com Peter Jackson em O Senhor dos Anéis.

Nada, não se enganem, essa é uma lista de amador, não de crítico profissional. E, quer saber?, já que é para radicalizar, se eu tivesse de responder àquela clássica pergunta-pegadinha – você pode levar um único filme para uma ilha deserta – sabe qual escolheria? Oito e Meio, de Federico Fellini. É o meu filme-fetiche, o meu filme consolo, o meu filme desafio, aquele que me diz que o cinema ainda vale a pena, que a vida vale a pena. É o meu conforto e a minha liberdade.

Escrevo isso no sábado de manhã, o sol bate na janela e ouço Nino Rota. Para bom entendedor…