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Cão sem Dono: linguagem despojada para retratar o mal-estar dos jovens

Luiz Zanin Oricchio

17 Junho 2007 | 11h23

Há cineastas que procedem por acumulação. Enchem seus filmes do máximo possível de efeitos e penduricalhos visuais. Beto Brant, pelo menos na atual fase, vai no sentido oposto. Procura livrar-se do que for acessório, em busca da máxima simplicidade. Do despojamento mais rigoroso. Palavras, gestos dos atores, luz, música – tudo é comedido, racionado, servido ao espectador em porções de nouvelle cuisine.

Por outro lado, por cima desse rigor estético, flutua uma talvez inesperada intensidade do que se vê em cena. No caso, um complicado relacionamento entre dois jovens, que vivem numa Porto Alegre inesperada, cenário urbano que, ele também, transmite uma grande força, por conta da sua autenticidade.

Ciro (Julio Andrade) e Marcela (Tainá Müller). Ele, um tradutor de russo que vive num apartamento precário e depende da ajuda dos pais. Ela, candidata a modelo, quer, como tantas outras, viajar, talvez se dar bem na vida. Nada mais banal. Nada mais intenso e significativo. Eles têm pouca coisa a dizer. Precisam se amar, os corpos se procuram, mas ao mesmo tempo se recusam. Entre os dois, um difuso mal-estar, que se expressa em problemas de saúde, inesperados em gente tão jovem.

Para completar o quadro, há o relacionamento do casal com um dublê de porteiro e artista, estranha figura que pinta quadros também pouco explicáveis e que seduzem os jovens. E também a família do ‘guri’, o pai, com sua pungente confissão de fraqueza diante do filho, uma cena com câmera parada, longa, de arrepiar. E, sim, há um cão.

Cão sem Dono é uma fatia de vida, como se diz, dotada de força particular, justamente porque não apela para qualquer outro tipo de expediente fora das contingências normais da vida dos seres humanos. Estamos diante de um realismo crítico, depurado, próximo das coisas mesmas, das sensações, da dor, do afeto, da incerteza. Próximo dessa pungência extrema que se experimenta diante de um amor jovem, voraz e perdido.

Embora o filme seja bastante inventivo em relação ao livro, criando seqüências inexistentes no texto original, parece muito fiel ao espírito desse pequeno romance do gaúcho Daniel Galera. No original, chama-se Até o Dia em Que o Cão Morreu, e foi publicada por uma pequena editora, anos atrás. Há pouco, foi reeditado pela prestigiosa Companhia das Letras. Em seu blog, Galera diz que, quando lançado pela primeira vez, o livro foi criticado porque nele nada acontecia. Reeditado, foi elogiado… pelo mesmo motivo.

O filme vai a esse cerne de questão: o doloroso não-acontecer, que é uma contingência contemporânea, sejamos jovens ou não. Dificilmente se poderia desejar melhor linguagem para essa condição do que a bela aridez bressoniana adotada por Brant.