Leonardo da Vinci em toda grandeza, mas sem fantasia
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Leonardo da Vinci em toda grandeza, mas sem fantasia

Luiz Zanin Oricchio

22 Junho 2014 | 23h33

Quem foi o maior gênio da humanidade. Aristóteles, Shakespeare? Einstein? Freud? Marx? Nietszche? Se essa pergunta tem algum sentido, é provável que a maioria das respostas convirja para outro eleito, Leonardo da Vinci (1452-1519), o nome referencial do Renascimento. Misto de cientista, anatomista, filósofo, construtor de máquinas de guerra, arquiteto, escultor e pintor (“Io anche sono pittore”, afirmava no currículo), Da Vinci nos impressiona, também, pela diversidade dos seus interesses e habilidades. Vem do personagem o encanto dessa minissérie italiana, de 325 minutos (2 DVDs), datada de 1971 e dirigida pelo cineasta Renato Castellani, com produção da RAI.

Há dois dados de início a serem destacados nessa minissérie: primeiro, ela se baseia em sólida documentação e, segundo, não se permite falsear e romantizar aquilo que não se sabe da vida de Leonardo. Quando se propõe a interpretação de alguma passagem nebulosa, diz-se, explicitamente, que aquilo é uma hipótese de trabalho, nada além. É uma minissérie honesta.

Para começar, o filme vai ao fim – isto é, à morte de Leonardo no castelo de Amboise, na França. Ele está no leito e lamenta não ter tido tempo de fazer tudo o que gostaria. Lembra o que foi deixado pela metade, projetos não saídos do papel, tanta coisa ainda por desenhar, pintar, escrever, compreender. Nessa cerimônia de morte de um sábio, irrompe na câmara a figura imponente do rei François I, ali levado para se despedir do seu mestre, protegido e amigo.

Nesse ponto, entra em cena um personagem surpreendente, vestido com roupas do século 20 e afirma, secamente, que a cena comovente que acabamos de ver simplesmente nunca aconteceu. Quando chegou ao fim da vida, explica, Leonardo já era uma lenda e a descrição dos seus últimos momentos tinha de figurar como a de uma morte gloriosa, assistida por um rei. Foi assim como passou à posteridade, retratada, inclusive, em uma tela de Ingres, La Mort de Léonard de Vinci. Essa interrupção destacada na narrativa dará o tom da minissérie. O personagem, de terno e gravata, óculos e ar professoral (Giulio Bosetti) surge em cena a torto e a direito. “Contracena” com os personagens que, eles sim, participam de um filme de época, suntuoso, bem documentado e encenado ora em estúdio ora em locações reais da paisagem italiana.

Através deles acompanhamos a vida do garoto de Vinci, que, filho ilegítimo de um comerciante e uma camponesa, será criado pelo pai. Num mundo prático, ninguém dá muita atenção ao menino curioso, com exceção de um tio, Francesco, que o avô de Da Vinci, em seu diário, classifica como o inútil da família. Pois será esse sonhador desprezado, de nenhum espírito prático, que abrirá os olhos do menino para as maravilhas da natureza. Com ele, Leonardo aprenderá a contemplar uma flor, os rios, os bichos, as nuvens. E a tirar ensinamentos dessa contemplação em aparência inócua. Francesco será sempre o elo familiar mais forte da Vinci. Repudiado pelos irmãos, que o têm como bastardo e tratam de deserdar, Leonardo, já famoso e rico, prestará sempre assistência material ao velho tio, que continuou a morar na propriedade de Vinci até o fim. Quanto ao pai, teve o bom senso de, ao intuir o talento do filho, encaminhá-lo ao ateliê de Andrea Verrocchio, em Florença, o que foi decisivo para sua carreira. Lá, o jovem Leonardo aprendeu de tudo, do artesanato à criação, e ganhou o convívio com colegas, entre eles Boticcelli, Lorenzo di Credi e Perugino.

Interpretado por Philippe Leroy na idade adulta, Leonardo será visto nas principais etapas da sua trajetória. Não se trata, é claro, de um estudo exaustivo do personagem – dá para calcular quantos livros já foram escritos apenas sobre uma de suas obras, a Mona Lisa? Apesar de sua extensão de quase seis horas, a minissérie apenas coloca em termos dramáticos alguns pontos-chaves dessa odisseia de artista e homem de saber. E capta o que talvez seja a essência dessa obra e do que precisamos dela saber para a incorporarmos ao nosso universo mental e estético.

A saber, que é exatamente pela diversidade de interesses e a negação de fronteiras entre disciplinas que Leonardo tornou-se grande e chegou até onde chegou. A curiosidade objetiva o levou a estudo da anatomia que é, nada mais nada menos, que o estudo do interior do organismo para ver como ele funciona. No filme é mostrado como Leonardo era implacável e usava de todos os recursos para ter acesso a cadáveres que pudessem ajudá-lo em suas descobertas. Desenhava o que via, órgãos, músculos, articulações, ossos. E essa intimidade com as entranhas do ser humano espraia-se em sua arte e refina-se. Por exemplo, seu São Jerônimo, um feixe de músculos distribuídos num corpo ascético, contém “erros”, pois é da fase prévia aos estudos anatômicos.

Leonardo buscava a exatidão, porque nele conviviam o cientista e o artista, o homem da observação e o da fantasia. Mesmo porque um dos ideais estéticos do Renascimento era a mimese, a cópia do real. No entanto, como estudos sugerem, se Leonardo aprofundava-se sempre mais nessa busca do rigor, sempre colocava seu mundo interior como lente para interpretar o real. Daí que a arte, a pintura em particular, era, para ele, não apenas meio de acesso ao real, mas a sua interpretação. E tinha a dimensão de um pensamento sem palavras. Era, como dizia, “cosa mentale”.

De algumas de suas obras, assistimos o presumível processo de criação, como são os casos do afresco A Última Ceia ou do quadro A Virgem nos Rochedos. Para a Ceia, teve de inventar técnica mista, pois seu detalhismo não se casava bem com a do afresco tradicional, pintado sobre o reboco ainda úmido (daí o nome). E há também as obras problemáticas, como o afresco Batalha de Anghiari, no Palazzo Vecchio de Florença, que desapareceu, e só pode ser inferida pelos desenhos preparatórios e cópias que se salvaram. Na história contada pela minissérie, Leonardo o teria pintado lado a lado ao seu maior rival, Michelangelo, que trabalhava na parede oposta. Para terminar seu mural a tempo, Leonardo teria testado uma técnica inédita de secagem a fogo, que se revelou desastrosa para a pintura.

Se a minissérie (transmitida para a TV italiana em cinco episódios) fornece esses detalhes do Leonardo artista e sábio, nunca perde seu foco, que é “o homem Leonardo”, como garante o narrador. No entanto, mostra-se bastante lacônica sobre a vida amorosa do personagem, como se esse grande inquiridor da natureza fosse desprovido de impulso sexual. No entanto, é nas entrelinhas e alusões que intuímos seu relacionamento com Salaï, um estroina belo como um querubim que ele toma como aprendiz e, mais tarde, na velhice, com o culto Francesco Melzi, que organizará seu legado e papéis após a morte.