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Lady Chatterley põe em cena o desejo feminino

Luiz Zanin Oricchio

19 Outubro 2007 | 13h11

O que Pascale Ferran faz com a obra de D.H. Lawrence não é apenas um bom trabalho de adaptação. Ela recria o livro que provocou escândalo em sua época e o resultado é um filme envolvente, amoroso e analítico. É também um filme que se dá (e ao espectador) tempo de absorção e contemplação. Necessário, porque é preciso que muita coisa aconteça na vida da Bovary tardia imaginada por Lawrence: que se case, o marido volte da guerra paraplégico, que ela perceba a sensualidade despertada por quem menos poderia esperar, etc.


Lady Chatterley não é um filme movido por simples caso de adultério. Aliás, o livro do qual deriva tampouco o é. Lawrence teve a sábia inspiração de fazer dessa história um romance interclasses sociais, o que somente o apimenta ainda mais. Numa sociedade curvada sob o peso de convenções e hierarquias muito explícitas e rígidas entre patrões e seus servidores, a senhora da casa apaixonar-se por um simples guarda-caça é algo visto como muito fora do programa social aceitável. Seria ainda hoje, imagine há quase 80 anos, em 1928, quando o romance foi publicado.

Mas essa é a história, que todos conhecem. A novidade da diretora Pascale Ferran é fazer dela, e de maneira definitiva, um filme autenticamente feminino. Lady Chatterley é um filme-fêmea, um objeto raro nesse universo fálico, e mesmo falocêntrico, que é o cinema. Ferran faz com que o ponto de vista seja mesmo o de uma mulher e isso quer dizer que explora a perspectiva da sexualidade feminina, feita de delicadeza e de nuances que, aos homens, só é dado imaginar.

E cabe a Pascale Ferran, também, ir contra o primeiro dos estereótipos e encontrar em Parkin, o personagem masculino, não o bruto como se poderia esperar numa reedição pitoresca de A Bela e a Fera, mas um ser também sensível e frágil. Numa das cenas mais bonitas, depois de um ato sexual intenso em particular, a mulher agradece ao homem. E este, em vez de se envaidecer, fica triste. Sente-se, talvez, usado como objeto de prazer. Nessa curiosa inversão de expectativas está uma das grandezas deste filme.

Que, entre outras coisas, é belamente realizado, no ambiente campestre que é aquele para o qual o casal Constance e Clifford Chatterley se muda depois do ferimento na guerra. Não se trata de uma beleza artificial, decorativa, mas a natureza entra como parte da narrativa, em princípio pela oposição entre a vida urbana x vida rural, possível motivo do tédio como ‘causa’ do adultério. Mas essa primeira pista é logo deixada de lado, e compreende-se por quê. Como feminista, Ferran não poderia se conformar com a idéia reacionária de que é o tédio que leva a mulher a buscar outro homem. Para dar consistência à obra, deve pensar o desejo feminino como princípio ativo, dotado de autonomia em relação às boas ou más condições do ambiente. Filme fêmea é assim.

Serviço

Cinemark Eldorado: Dom., às 21h30. Cinesesc: Dia 24, às 17h10. Reserva Cultural 1: Dia 25, 18 h. Cotação: Ótimo