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Diário da Itália (7) Kiarostami, Kitano, etc.

Luiz Zanin Oricchio

30 Agosto 2008 | 08h00

VENEZA – Muita gente me pede informacoes sobre outros filmes. Como estou numa correria danada, transcrevo aqui os relatos que tenho mandado para o Caderno 2. Desculpem tambem se demoro a liberar os comentarios. O blog esta dando problemas para ser manejado daqui de fora. A senha eh exigida varias vezes, etc.

Era grande a curiosidade sobre os novos filmes de dois mestres, o iraniano Abbas Kiarostami e o japonês Takeshi Kitano. O primeiro, fora de concurso, com Shirin; o segundo, disputando o Leão de Ouro (que ele já ganhou um, em 1997, com Hana-Bi), com Aquiles e a Tartaruga.
Não havia muita gente na sala para ver Shirin, o novo Kiarostami. E boa parte do público saiu durante a sessão, incomodada com a radicalidade do projeto do iraniano. Quem ficou, foi recompensado por um excepcional exercício metalingüístico do mestre. Trata-se da apresentação de uma peça teatral, baseada num poema persa do século 12. Só que o espectador nada vê da peça, a não ser pela reação do público. São 114 atrizes iranianas, e mais a diva francesa Juliette Binoche, que “interpretam” para nós o que só elas vêem num suposto palco.
Shirin é uma radical experiência de hors champ (fora do campo). De certa forma, o filme é reflexão sobre o poder mobilizador da arte. De outra, é também um estudo sobre a capacidade expressiva do rosto humano. As atrizes interpretam com seus olhos, com seus músculos faciais, com suas bocas, e fazem com que imaginemos o que estão vendo, e do qual só temos o som – os diálogos, a música, o ruído das patas dos cavalos, o choque das espadas. Sim, porque se trata de uma história de amor e aventura, que leva nossas protagonistas ao medo, à esperança, às lágrimas, à reflexão. É genial. E passado o momento de estranheza de vermos na tela apenas rostos e os ruídos de uma peça que não vemos, é possível meditar sobre essa arte do cinema, que é feita do visível, mas também do invisível – por mais que esse fato pareça alheio a uma sensibilidade do explícito, como a nossa.
Kitano, em sua reflexão sobre o paradoxo de Aquiles e da Tartaruga, também agradou, embora todos concordem que estamos longe do cineasta de Hana-Bi ou Sonatine. Nos últimos anos, Kitano chegou a preocupar seus fãs, imerso numa profunda e assumida crise criativa. Seus dois últimos filmes – ambos presentes em festivais anteriores em Veneza – eram testemunhas desse mal-estar do criador consigo mesmo. Takeshi’s, de 2005, e Glória ao Diretor, de 2007, eram variações dessa busca do autor em torno de si mesmo – e que, no fundo, não conseguiam interessar a mais ninguém.
Se que se, desta vez a veia autobiográfica ainda está presente, Kitano consegue alçá-la a um plano de interesse mais geral. O dado: depois de um terrível acidente de moto, que quase o matou, Kitano passou a pintar e hoje expõe seus quadros. Aliás, a preocupação com as artes plásticas comparece desde os seus primeiros filmes. Quem não se lembra em Hana-Bi do policial que se torna paraplégico depois de levar um tiro e se conforta dedicando-se a pintar aquarelas? Mas, bem, em Aquiles e a Tartaruga, Kitano acompanha a história de um garoto dotado para as artes plásticas, e seus percalços ao longo da vida. Machisu é filho de pai rico, mas este perde tudo e morre. O menino vai ser criado por um tio pouco sensível e toda a sua trajetória será em busca da expressão artística. Do domínio da técnica ao plágio, até encontrar sua linguagem – se é que isso é possível.
É também o sentido do título do filme, que se refere ao paradoxo de Zenão. Por mais veloz que seja Aquiles, ele jamais alcançará a tartaruga, se esta sair em vantagem. Porque quando Aquiles chega ao ponto onde estava a tartaruga, ela já terá avançado um pouquinho – e assim por diante. Passamos a vida toda tentando encontrar a nossa linguagem, aquele estilo que nos é tão pessoal que não se confunde com nenhum outro, e ele está sempre um tantinho adiante de nós. Kitano reflete sobre si mesmo. Mas, desta vez, sua reflexão serve para todos nós.
Jerichow, o concorrente alemão, dirigido por Christian Petzold, foi recebido friamente na sessão para os jornalistas, mas é filme que tem méritos. Não inova no clássico tema do triângulo amoroso. Ali é o rico comerciante turco, casado com Laura, alemã de passado complicado. Na vida dos dois entra o jovem Thomas, que se torna empregado de Ali e amante da patroa. Ambos planejam desembaraçar-se do marido. A trama parece conhecida? Claro, ela dialoga com The Postman Always Rings Twice, de James Cain, adaptado por Luchino Visconti no início da sua carreira com o título de Sedução da Carne.
Mas é claro que se trata de um diálogo, não de uma paródia. As interpretações são secas, despojadas. Constroem-se em torno da obsessão de todos, o dinheiro. Explicitada, em determinado momento, pela protagonista, Laura (Nina Hoss): “Sem dinheiro, não existe lugar para o amor”. E um desfecho-surpresa, diferente daquele imaginado por Cain e filmado por Visconti. É bom signo do cinema alemão, que reencontra leveza e profundidade depois de alguns anos meio burocráticos.

Notas:
A favor do público
O cineasta Wim Wenders, presidente do júri de Veneza, disse que não pedirá sessões privadas para os jurados que terão a responsabilidade de atribuir o Leão de Ouro e os outros prêmios do festival. “”De comum acordo”, decidimos ver todos os filmes junto com o público, porque para ele as obras são destinadas”. Restaria acrescentar que esse público é muito especial, feito por pagantes, mas também por Vips e convidados. Em nada se assemelha àquele público comum, que determina o fracasso ou o sucesso comercial de um filme
Mais índios
É esperada a presença de índios brasileiros para a sessão de Birdwatchers, do ítalo-argentino Marco Becchis, uma co-produção entre Itália (80%) e Brasil (20%), rodada no Mato Grosso. Porém, de surpresa, apareceu no Lido o cineasta brasiliense Armando Lacerda, trazendo na mala seu documentário sobre o cacique Juruna, que será exibido na sala de vídeo do Cassino do Lido.
Elegância
O Lido não é mais aquele. A crítica não vem de Valentino, o ícone da moda, mas do presidente do Centro Sperimentale di Roma, o sociólogo Francesco Alberoni. Ele se incomoda com as hordas de estudantes mal vestidos que andam pelas ruas do elegante balneário e entram nas salas dos cinemas do festival. O engraçado é que a instituição que dirige foi o centro difusor das idéias do neo-realismo, que propunha mostrar o povo como o povo é – e nisso encontrava sua beleza. Será que o Centro Sperimentale não é mais o mesmo?