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Justiça a Qualquer Preço

Luiz Zanin Oricchio

15 Outubro 2007 | 17h49

Justiça a Qualquer Preço, de Andrew Lau Wai-keung, começa com algumas estatísticas, mescladas a frases de teor filosófico. Os números: existem cerca de 500 mil criminosos sexuais registrados nos Estados Unidos. Cada grupo de mil desses maníacos é supervisionado por um oficial da polícia. A cada minuto, uma mulher ou uma criança é molestada sexualmente no país. A frase: ‘Quem combate monstros tem de tomar cuidado para não se tornar um deles. Quando você olha para dentro do abismo, o abismo olha para dentro de você.’

Bem, a frase é de Nietzsche, e o personagem problemático é um desses oficiais, Errol (Richard Gere), em seus dias finais da carreira, prestes a ser substituído por uma novata, Allison (Claire Danes). Eles deverão conviver durante 18 dias, até que Errol passe definitivamente o bastão para a moça que veio tomar o seu lugar. Estarão juntos no caso de desaparecimento de uma adolescente, talvez seqüestrada para servir de oferenda no festim promovido por um ou mais desses maníacos sádicos.

Afora o tema um tanto inusual, Justiça a Qualquer Preço segue alguns esquemas básicos do filme policial norte-americano: o profissional mais velho que convive com o mais jovem, as lições mútuas que tiram, o ímpeto de um contra a experiência de outro (embora essas características possam aparecer com o sinal trocado) e etc. Mesmice temperada pela vivacidade da câmera desse chinês de Hong Kong, co-diretor do cult Infernal Affairs cuja refilmagem americana, Os Infiltrados, valeu o Oscar a Martin Scorsese.

Visualmente interessante, é pena que as premissas do filme não sejam cumpridas. Afinal, partindo-se das tais frases que combinam abismo e monstruosidade, poderíamos esperar pelo aprofundamento psicológico dos tais caçadores de pervertidos sexuais. Essa possível identificação entre caça e caçador, se bem que esboçada em alguns instantes, não se adensa. Isso poderia levar a história a desvãos perigosos, pois, como sabe qualquer debutante em psicanálise, a sexualidade humana é um novelo e costuma embaralhar com muita facilidade noções de normalidade e anormalidade. E um filme comercial foge desse tipo de complexidade como o diabo da cruz.