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Inundados, clássico do argentino Fernando Birri

Luiz Zanin Oricchio

27 Julho 2007 | 13h27

Já que o Festival de Veneza esnobou a produção latino-americana, vão aí alguns destaques do Festival de Cinema dedicado a essa cinematografia, acontece em São Paulo e prossegue até domingo.

O filme a não se perder na programação de hoje é o clássico latino-americano Os Inundados (13 h, Memorial da América Latina), de Fernando Birri, um longa-metragem de 1961. Nele, Birri combina empenho e crítica social, mas mescla a seriedade do tema com um clima picaresco, que torna sua denúncia talvez ainda mais ácida. Em sintéticos 87 minutos, Os Inundados acompanha os membros da família Gaitán, sem eira nem beira, que, por força de inundações, passam a viver como ciganos, de maneira itinerante.

Birri é o grande nome da Escola de Santa Fé, sua cidade natal. É autor de um dos documentários mais influentes da história do continente – o curta Tire-Dié, sobre meninos pobres que sobrevivem pedindo esmolas aos passageiros do trem. Tire-dié é uma corruptela do que gritam os meninos aos passageiros – “atirem dez”, moedas de dez centavos. Comentando esse filme, Birri diz que gosta de ter seu espectador “comovido, mas lúcido”. É isso.

Poderíamos dizer, também, que com Os Inundados, o espectador fica comovido, lúcido …e divertido. É aquele tipo de comédia que não esquece jamais seu objetivo principal, que é observar uma realidade social permanentemente desfavorável para os mais fracos – no caso, a pobre família Gaitán.

Há ainda outras possibilidades para o público nesta sexta, embora não tão boas quanto Os Inundados. Uma delas é o peruano Mariposa Negra (Memorial, 19 h), de Francisco Lombardi. Trata-se de um thriller político, história da garota cujo noivo, um juiz incorruptível, aparece assassinado. Ela resolve desvendar o crime, que está sendo acobertado, pois, ao que parece, as ordens vieram de altas esferas do governo – é tempo de Fujimori na Presidência e de seu escudeiro Vladimiro Montesinos, todo-poderoso chefe do SIN (Serviço de Inteligência Nacional). O objetivo de Gabriela (Melania Urbina) é chegar a Montesinos para se vingar. Para tanto, é ajudada, pasmem, pela jornalista que escreveu uma matéria sensacionalista sobre o crime.

Apesar do interesse do tema, e da relativa fluidez com que a história é contada, surgem pontos de quebra. Inverossímeis, como o indicado acima e também equívocos de casting, como a protagonista e a repórter (Magdyel Ugaz) jovem demais para ostentar a experiência de vida, o cinismo e a amargura que seu papel pede. Lombardi é um grande cineasta, com obras como Caidos del Cielo e Boca de Lobo no currículo. Em Mariposa Negra está aquém dele mesmo. Ainda assim, é filme para ser visto.

Outro filme interessante a conferir é As Mãos (Sala Cinemateca, 16h30), de Alejandro Doria. Por que o interesse? Porque conhecemos melhor a nova guarda argentina (Pablo Trapero, Lucrecia Martel), que faz sucesso nos festivais, do que o cinema popular produzido pelo país vizinho. E Las Manos é o que há de mais popular com sua história melodramática do padre Maria Pantaleo (Jorge Marrale), nascido em Pistóia, na Itália, radicado na Argentina, e dono de supostos poderes para curar com as mãos. Participou do Festival de Havana e foi ovacionado longamente no maior cinema da cidade, o Cine Yara. É currículo.

(Estadão, Caderno 2, 27/7/07)