Intérpretes da Metrópole
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Intérpretes da Metrópole

Luiz Zanin Oricchio

12 Junho 2011 | 13h09

O leitor apressado pode estranhar que o tema do livro seja alcançado apenas nos capítulos finais, ficando o início para uma espécie de delimitação de terreno. É preciso ter um pouco de calma, mesmo porque Heloísa Pontes, em Intérpretes da Metrópole, deseja justamente tecer e lançar uma rede de relações que torne mais inteligível a emergência de uma série de atrizes estupendas na até então provinciana São Paulo dos anos 1940 e 1960. Assim fazendo, as trajetórias de estrelas como Cacilda Becker, Tonia Carrero, Nídia Lycia, Maria Della Costa, Cleide Yáconis e Fernanda Montenegro ganham aos olhos do leitor o relevo que merecem.

Suas aparições na cena paulistana se dão no quadro de profunda transformação da cidade, que de província torna-se metrópole em ritmo acelerado naqueles decênios. São Paulo cria a sua primeira universidade – a USP – em 1934 e, com isso, atrai para o corpo docente um grupo de jovens professores franceses, como Claude Lévi-Strauss, Roger Bastide e Jean Maugüé, que trazem novas ideias na bagagem. Em seguida, os discípulos desses mestres europeus reúnem-se para a criação de uma revista, a Clima. Essa publicação lança as novas assinaturas que se tornariam nomes fundamentais da intelligentsia brasileira como Antonio Cândido Mello e Souza, Ruy de Andrade Coelho, Paulo Emilio Salles Gomes e Décio de Almeida Prado, entre outros. Décio, em particular, torna-se fundamental no desenvolvimento tanto do jornalismo cultural quanto do pensamento dramatúrgico no País.

A Clima dura pouco. Vai de 1941 a 1944, com meras 16 edições. Mas sua influência no pensamento nacional não se mede pelo tempo ou do números publicados. Funciona como embrião de projeto mais sólido e duradouro – o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, que seria projetado por Antonio Candido e dirigido por Décio de Almeida Prado alguns anos depois, partir de 1956.

Daí a pertinência de aproximar a revista paulistana Clima e a nova-iorquina Partisan Review, ambas com textos inovadores para suas épocas e contribuição de talentos vindos de outros lugares e de outros países, alguns dentre eles refugiados da tensa situação política europeia que, com a ascensão dos fascismos, afugentava o pensamento livre. Rigorosa, Heloisa marca também as diferenças entre editar uma revista em cidade culturalmente consolidada, como Nova York, e na ainda incipiente São Paulo dos anos 1940.

Essa distinção fica ainda mais clara ao traçar os perfis de três mulheres – Lúcia Miguel Pereira, Patrícia Galvão e Gilda Melo e Souza – e suas dificuldades em assumir a posição social de intelectuais num quadro predominantemente masculino, em oposição ao de suas colegas nova-iorquinas da Partisan Review, Mary McCarthy, em particular.  As três brasileiras abrem espaço, em processo não de todo desligado dos seus companheiros de trabalho e maridos, Pagu, com sua ligação com Oswald de Andrade e depois Geraldo Ferraz; Lúcia, casada com o historiador Octávio Tarquínio de Souza; e Gilda, que se tornou mulher de Antonio Candido Melo e Souza. Aliás, nas análises posteriores das atrizes, Heloísa Pontes destaca de que modo essas afinidades eletivas no campo afetivo também afetariam suas trajetórias no âmbito artístico, relações explicitadas no capítulo intitulado Parcerias Amorosas e de Trabalho.

De qualquer forma, em termos de ambiente, a São Paulo que Heloisa radiografa é uma cidade que se acultura em ritmo acelerado. Recebendo os influxos da então predominante influência francesa, ainda no quadro da 2ª Guerra Mundial, com as turnês de Louis Jouvet e Henriette Morineau, a cidade prepara o ambiente para iniciativas com o Teatro Brasileiro de Comédia (o TBC) e a Vera Cruz, no âmbito cinematográfico.

E é nesse ambiente fecundo que as grandes atrizes podem encontrar o clima adequado para desenvolver seus talentos pessoais. Cada uma delas mereceria estudo à parte, tamanha a dimensão de suas contribuições não apenas ao teatro, mas ao conjunto da cultura brasileira. Todas passaram pelo TBC e algumas delas formaram depois companhias próprias como Cacilda, Tônia e Maria della Costa.

Talvez a mais estudada entre elas seja Cacilda Becker, biografia marcante não apenas pela morte precoce, mas também pelo singular da trajetória e pela intensidade de sua presença na cena brasileira. De família modesta do interior do Estado, Cacilda viveu e se formou em Santos, mudou-se para o Rio para tentar ser bailarina até chegar a São Paulo. Era tal seu magnetismo em cena que Gilda de Mello e Souza a ela se referiu como o “corpo iluminado”. Décio de Almeida Prado falava que era um “feixe de nervos”. Tais caracterizações tentavam descrever a atriz, que não era particularmente bela, nem dotada de grande voz, mas que tornava inesquecíveis os papeis que interpretava. Durante sua permanência no TBC, de 1948 a 1957, Cacilda transformou-se na grande atriz brasileira de sua época, atuando em 23 peças, em papeis que a celebrizaram como Inês de Entre Quatro Parede, de Sartre, com direção de Adolfo Celi; Alma, de O Anjo de Pedra, de Tennessee Williams, dirigida por Luciano Salce; e Mary Stuart, no drama de Schiller dirigido por Ziembinski.

Cacilda, como se sabe, morreu praticamente no palco, quando ao lado do marido Walmor Chagas encenava Esperando Godot, de Samuel Beckett, em 1969. Teve um aneurisma cerebral fulminante e foi retirada para o hospital no intervalo da peça, ainda vestida com sua roupa de clown. Não resistiu e morreu após 38 dias de coma aos 48 anos de idade. Comovido, Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema que expressava o sentimento geral: “A morte emendou a gramática/Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas (…)”. O poeta, após violar a concordância em nome da verdade, passava a enunciar as personagens que haviam ganhado vida através do corpo de Cacilda, e dela fizeram uma atriz tão plural. Mary Stuart, Alma Winemiller, Marta, Margueritte Gautier, o menino Pega-Fogo, o mendigo de Godot. “Morreram mil Cacildas em Cacilda”, concluía.

O legado de Cacilda Becker sai iluminado desse estudo de múltiplos focos que, por sua natureza, não se dirige apenas à grande atriz. Dirige-se a todo o conjunto de manifestações artísticas e culturais que, determinado pelo processo de metropolização de São Paulo, também o determina. Uma cidade, um tempo, um clima – esse tecido complexo do social e do individual é obra de muitas mãos. Em Intérpretes da Metrópole, Heloisa Pontes, autora também do excelente Destinos Mistos, ensaio sobre a geração dos jovens intelectuais da revista Clima, consegue, como diz Antonio Arnoni Prado na introdução, “juntar as duas pontas do seu tema: os dados materiais do mundo…e as relações de transcendência artística que os articula”. Resta dizer que o ensaio, fruto da livre-docência defendida por Heloisa na Unicamp, se inspira em observação de Gilda de Mello e Souza, segundo a qual o teatro, em São Paulo, havia se antecipado aos estudos sociais e se encarregado, no Sudeste, da tarefa realizada no Nordeste pelo romance. Poucas vezes o laboratório de experimentações sociais e estéticas que existiu na vida paulistana naqueles anos cruciais foi retratado com tanta intensidade.