Ingrid Bergman x Anna Magnani: a Guerra dos Vulcões
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Ingrid Bergman x Anna Magnani: a Guerra dos Vulcões

Luiz Zanin Oricchio

13 Outubro 2012 | 18h55

Roberto Rossellini era o mais famoso diretor da Itália. Sua mulher, a atriz Anna Magnani, a mais conhecida. A sueca, radicada nos Estados Unidos, Ingrid Bergman, a maior diva de Hollywood no final dos anos 1940. Protagonizaram o mais rumoroso triângulo amoroso do cinema da época, e, talvez, de todos os tempos, como está escrito no livro La Guerra dei Vulcani (A Guerra dos Vulcões) de Alberto Anile e Maria Gabriella Giannice, que tem o subtítulo de Rossellini, Magnani e Bergman. O caso foi levado às telas no documentário de Francesco Patierno que, em italiano, adota o mesmo título do livro. No Brasil, simplificado para Bergman x Magnani, o filme passa na Mostra de Cinema de São Paulo, que começa dia 18, para convidados e, no dia seguinte, para o público.

Deve-se dizer, em primeiro lugar, que La Guerra dei Vulcani não é um livro de fofocas, embora, em boa parte, trate da vida pessoal de três pessoas muito conhecidas. É um livro sobre cinema e discorre sobre a influência de destinos individuais sobre a construção de obras artísticas. Fosse um volume de gossips não teria sido prefaciado por Adriano Aprà, um dos maiores críticos de cinema da Itália e que foi amigo pessoal de Paulo Emilio Salles Gomes. Em suma, um intelectual sério, que vê o cinema como atividade artística e não como passarela para divas. No prefácio, Aprà escreve que “Nas entrelinhas (os autores) revelam o que era a Itália da época e o que eram os Estados Unidos, seja no cinema seja nos costumes: nos preconceitos em relação a uma arte e uma moral fora das regras e na ‘mediterrânea’ de invenção criativa e anticonformismo.”

O interessante é que o título do livro, e do filme, em italiano, evoca não apenas as chamas da paixão, mas dois filmes que saíram desse afrontamento amoroso, ambos ambientados nas ilhas vulcânicas da Sicília, as chamadas “Ilhas Eólicas”. A história é fascinante.

Rossellini nunca havia estado nessas ilhas quando sua atenção foi chamada para elas por três amigos sicilianos, de família rica e sangue nobre. Eles eram mergulhadores e desenvolviam o projeto de uma câmera capaz de filmar embaixo d’água. Eram também apaixonados pelas ilhas e formularam a Rossellini, então famoso por filmes como Roma – Cidade Aberta e Paisà, obras fundadoras do neorrealismo, um convite para dirigir um filme lá ambientado. A atriz, seria Anna Magnani, a diva italiana, e atriz comovente de Roma – Cidade Aberta. Rossellini recebeu o convite com simpatia e olhou com interesse as imagens filmadas que os amigos sicilianos lhe apresentava. Aquelas ilhas vulcânicas seriam, de fato, palcos ideia para os dramas humanos que sonhava filmar.

Mas, como era de sua natureza, Rossellini tinha vários projetos em mente, entre eles um convite de David O. Selznick, produtor de …E o Vento Levou, e que estava em busca de um talento europeu para fertilizar o então desértico ambiente cultural do cinema americano. Desse ambiente, a sueca Ingrid Bergman também se ressentia. Havia atendido ao convite do mesmo Selznick e emigrado aos Estados Unidos, onde ficara famosa por estrelar filmes como Casablanca, de Michael Curtiz, e Interlúdio, de Alfred Hitchcock. Queria projetos mais desafiadores e buscava diretores estimulantes.

Rossellini ainda estava em dúvida sobre o caminho a seguir em sua carreira e vivia um casamento tempestuoso com Anna Maganani, mulher de temperamento forte e caprichoso. O casal morava no Hotel Savoy, em Roma, quando Rossellini recebeu uma carta, salva de um incêndio da produtora Minerva, para a qual trabalhara. Vale a pena reproduzi-la: “Caro senhor Rossellini. Vi seus filmes Roma – Cidade Aberta e Paisà e fiquei entusiasmada. Caso tenha necessidade de uma atriz sueca, que fala muito bem inglês, não esqueceu o alemão, faz-se entender em francês e em italiano sabe apenas dizer ‘eu te amo’, estou pronta a fazer um filme com o senhor. Cordiais saudações, Ingrid Bergman”.

É impossível que um homme à femmes como Rossellini não tenha visto no texto uma sutil cantada. Além disso, era lisonjeiro que a mais famosa atriz do cinema de Hollywood se oferecesse para trabalhar com ele. Não hesitou. Deixou o Hotel Savoy às escondidas, telegrafou a Ingrid Bergman e começou colocar de pé o projeto que culminaria com Stromboli, sua história ambientada na ilha vulcânica, tendo Ingrid como a refugiada de guerra que se casa com um pescador.

Furiosa e traída, Anna Maganani reagiu no mesmo campo de luta. Integrou-se ao projeto original dos amigos sicilianos (que, eles também, sentiam-se traídos por Rossellini), contrataram o diretor William Diertele e passaram a trabalhar em Vulcano, também ambientado em uma das Ilhas Eólicas. Anna Magnani vivia a prostituta que retorna para sua terra natal e é hostilizada por seu passado.

Duas mulheres rivais afrontavam-se em filmes rivais e duas ilhas vulcânicas no litoral da Sicília. O resultado não foi o que se esperava de tanto fogo e paixão. Tanto Stromboli como Vulcano, estreados com poucas semanas de diferença, foram fracassos de público e não comoveram a crítica. Não caíram no esquecimento, porém, e muito, talvez, em razão dos destinos pessoais que esses filmes mudaram. Hoje Stromboli é visto como um dos grandes trabalhos da segunda fase de Roberto Rossellini;  Vulcano, relançado há pouco em versão restaurada, tem sido bem reavaliado. Foram o que restou das lavas do passado.