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Help me Eros… e outras dicas

Luiz Zanin Oricchio

24 Outubro 2007 | 13h14

Há freqüentadores da Mostra que buscam ‘programas de risco’, isto é, filmes fora das normas possíveis (se é que elas existem mesmo) de qualidade artística. Um desses programas é Help Me Eros, de Lee Kang Sheng, de Taiwan, que participou na mostra competitiva principal do Festival de Veneza deste ano. Lee é ator e já trabalhou com Tsai Ming Liang (em O Rio). Agora Tsai Ming produz este que é o segundo longa-metragem de Lee como diretor. Fazem parte da mesma turma e mantêm diálogo entre suas propostas estéticas.

Que, claro, nada têm de banal. Fazem filmes de visual rebuscado, estranhos, que evitam os lugares-comuns da imagem cinematográfica contemporânea. Por exemplo, Lee trabalha muitas vezes com tomadas longas, câmera parada, como degustando imagens que, em princípio, pouco têm de atraente. É outra a proposta de beleza que se esboça em filmes desse tipo.

Mesmo as histórias, os ‘enredos’, para usar um termo aproximado, pouco têm de usual em seu desenvolvimento, se bem que a temática de fundo possa ser das mais simples, como veremos em seguida. Digamos que exista um personagem principal do qual iremos adivinhando a história pessoal, pouco a pouco. Apostador no cassino da Bolsa de Valores, aparentemente ele perdeu muito dinheiro, talvez tudo o que tinha. Ocupa-se agora das garotas em trajes sumários que vendem cigarros e doces no bar embaixo do seu prédio. Fuma a maconha que ele mesmo cultiva em sua casa. Há outras histórias paralelas à dele, mas a sua é a principal, uma espécie de fio condutor do filme.

Ah Jie (interpretado pelo próprio Lee Kang Sheng) passa a alimentar fantasias a respeito de uma das moças. Ao mesmo tempo, a idéia do suicídio o tenta e ele busca auxílio em um serviço telefônico de ajuda aos desesperados. De certa forma, o tema recorrente – e banal – em meio às propostas originais, é este: num mundo em desencanto, apenas Eros salva. Por isso, o protagonista pede socorro ao deus do amor, louvando-o da maneira que ele mais gosta – pela prática. O que quer dizer que o filme é atravessado por uma sensualidade às vezes bem explícita e exacerbada.

Em Veneza, Lee disse que seu trabalho procurou ser autobiográfico. Sua carreira de ator foi ameaçada por uma estranha doença que o impedia de manter o pescoço ereto (acontecimento que faz parte de O Rio, de Tsai Ming Liang). Os médicos pensavam que seria uma deficiência permanente, mas ele curou-se espontaneamente. Depois, jogou na Bolsa o que havia ganho com seu trabalho de ator e perdeu tudo. Em depressão, pensou seriamente no suicídio e buscou socorro num atendimento a desesperados. Nunca conseguiu falar com ninguém, pois as linhas mantiveram-se sempre ocupadas. Aparentemente, em Taipé, onde mora, um bom contingente da população é tentado pela idéia de pôr fim aos seus dias.

Bem, esse tom autobiográfico talvez seja responsável pela força inicial do filme. Lee conta a sua vida ao fazer cinema. Ou melhor, tenta reconstruir sua biografia de forma ficcional, quer dizer, fazendo-se personagem de si mesmo e podendo assim olhar-se de fora, de maneira distanciada. O trabalho artístico como aquilo que permite contornar o sintoma, se permitem essa alusão psicanalítica. É o que lhe dá a liberdade de, não apenas refazer um trajeto factual, que leva em conta as coisas que aconteceram de fato na chamada vida real, mas também incluir aquilo que se poderia chamar de vida de fantasia. Realidade e imaginação se confundem. Fatos mesclados com aquilo que pensamos sobre os fatos. Ou a maneira como os amoldamos a nossos desejos e inclinações. O visual quase psicodélico do filme mostra como a realidade é filtrada por uma mente que às vezes é puro desejo, e outras, puro desespero. Vale a experiência. E o risco.

Serviço

Espaço Unibanco 3: Hoje,às 22h40. Cinemateca: Dia 31, às 15h50. Cotação: Bom

Mais recomendações para hoje:

Le Voyage du Balon Rouge (19h, no Arteplex 1), de Hou Hsiao-Hsien, uma homenagem ao filme O Balão Vermelho, de Albert Lamourisse,de 1956, mas também uma visão pouquíssimo dogmática sobre as agruras da vida contemporânea. Juliette Binoche é a atriz que precisa se virar em várias frentes: o marido está em Montreal escrevendo um romance, as contas estão atrasadas, ela corre para lá e para cá e ainda tem um filho para criar. Arruma uma babá chinesa, que está na França para rodar um filme sobre…O Balão Vermelho. Metacinema (cinema que fala de cinema) sem qualquer afetação pós-moderna, num trabalho humano, envolvente, cálido. Poesia pura, naquele balão flutuando sobre uma Paris magnífica, enquanto os conflitos humanos ardem cá embaixo. Amei. Não percam, porque é o melhor filme do dia.

A Valsa (21h10, no Arteplex 1), do italiano Salvatore Maira, tem como maior atração o fato de ser filmado em um único plano, sem cortes. Pelo menos eu não notei nenhum. A narrativa, por vezes, é meio prejudicada pelo virtuosismo, mas ainda assim, é um filme estimulante.

Onde Andará Dulce Veiga (15h30, no Arteplex 2), de Guilherme de Almeida Prado, baseado no romance de Caio Fernando Abreu. Aqui, do que se trata é descobrir a cantora de sucesso que de repente sumiu do mapa. Algumas referências básicas de Guilherme, as divas, o cinema noir, as citações, como ao cinema de Hitchcock, etc, servem a uma narrativa que desperta o interesse do espectador, mesmo que ele não se preocupe em decodificar tudo o que filme traz em seu intertexto.