Há 30 anos Drummond vive em nós
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Há 30 anos Drummond vive em nós

Luiz Zanin Oricchio

17 Agosto 2017 | 13h02

Parece que foi ontem. Todo o país, creio, acompanhou comovido os dias finais do poeta. Pouco antes havia morrido sua filha única e Drummond acompanhou o enterro. Alguns dias depois, morreu.

Lembro de uma reportagem na TV. Aquele tipo de matéria destinada a checar a permanência de determinados nomes na memória popular. O repórter perguntou a uma menina de escola se ela sabia quem era Carlos Drummond de Andrade. Depois de alguns instantes de hesitação, a criança balbuciou, certinho…”Acho que era um poeta”.

Não sei bem por quê, aquela criança falando de alguém que para ela era apenas alguma vaga referência ouvida em sala de aula, me tocou profundamente. Era…um poeta.

Na época, eu fazia parte de um grupo de psicanálise, que editava uma revista. Me convidaram para escrever sobre Drummond. E eu, num texto trabalhoso, que nunca mais li, e nem sei onde foi parar, comecei pela declaração daquela menina. Era um poeta.

Pois, para mim, também um dia fôra assim. Conheci Drummond apenas porque um professor de Português do colégio dividiu a classe em grupos para estudar autores brasileiros e, para minha turma, tocou o poeta de Itabira. O acaso é tudo.

Nunca o havia lido e comecei apenas para fazer aquele trabalho de grupo. Estranheza inicial com a famosa “pedra no meio do caminho” e, logo, o encantamento de Poema de Sete Faces e a ironia triste de Também Já Fui Brasileiro.

A partir desse trabalho escolar, Drummond passou a fazer parte da minha vida, para nunca mais sair. Talvez seja a mais cotidiana das minhas leituras, a mais recorrente. Consulto Drummond como um religioso as Escrituras.

Mas as minhas são escrituras laicas.

Já tudo se escreveu sobre Drummond e não vou repetir o que outros disseram melhor. Apenas, do ponto de vista pessoal, digo que me tocou muito o despojamento mineral do poeta. Seu antilirismo radical, essa poesia que tende à prosa e na qual tudo é rigor. (Nesse sentido, creio, a única aproximação possível com Drummond é João Cabral de Melo Neto).

Entramos no mundo de Drummond pelo mistério dos seus primeiros livros, Alguma Poesia e Brejo das Almas, e perdemo-nos em Drummond pela poesia social de Rosa do Povo. Como nos parece atual este Nosso Tempo: “Este é tempo de partido/tempo de homens partidos”. E o que dizer de A Morte do Leiteiro, senão que não há mais leiteiros, mas a violência continua e é maior do que nunca? “Da garrafa estilhaçada/no ladrilho já sereno/escorre uma coisa espessa/que é leite, sangue…não sei.” Em tempo de guerra, o poeta canta a resistência em Carta a Stalingrado, mas também o Homem do Povo Charlie Chaplin. Fala das intermitências do amor no formidável poema narrativo O Caso do Vestido. E, nessa pequena obra-prima que é Resíduo, descreve a permanência das coisas, a natureza grudenta e às vezes gosmenta da memória: “De tudo ficou um pouco/Do meu medo.Do teu asco/Dos gritos gagos. Da rosa/Ficou um pouco”.

Há um Drummond de pés no chão (“Tenho apenas duas mãos/e o sentimento do mundo”) e um Drummond metafísico, “a máquina do mundo se entreabriu/para quem de a romper já se esquivava/e só de o ter pensado se carpia”. E, àquela época engajado, declara sem meias palavras: “O poeta/declina de toda responsabilidade/na marcha do mundo capitalista/e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas/promete ajudar/a destruí-lo/como uma pedreira, uma floresta/um verme”.

O mundo capitalista não se destruiu, embora ameace destruir o planeta. A realidade tornou-se áspera, árida, desencantada. Mas, se a olharmos de certo jeito, sempre encontramos uma fresta de luz. E sempre há Drummond.

“Vamos, não chores.

A infância está perdida.

A mocidade está perdida.

Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.

O segundo amor passou.

O terceiro amor passou.

Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.

Não tentaste qualquer viagem.

Não possuis casa, navio, terra.

Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,

em voz mansa, te golpearam.

Nunca, nunca cicatrizam.

Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.

À sombra do mundo errado

murmuraste um protesto tímido.

Mas virão outros.

Tudo somado, devias

precipitar-te, de vez, nas águas.

Estás nu na areia, no vento…

Dorme, meu filho.”

(Consolo na Praia, em A Rosa do Povo)

 

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