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Grande Buñuel
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Luiz Zanin

15 Março 2016 | 19h10

 

luis

Em férias, assisto a filmes por meu puro prazer. Por exemplo, ontem, Rô e eu vimos o bom documentário sobre Luis Buñuel da série Cineastes de Notre Temps. Uma série francesa que contém, entre outros, Jean Vigo e Carl Dreyer.  O melhor que vi, até agora, foi o de Vigo, de que falo em outra ocasião.

O de Buñuel não é longo. Uns 37 minutos de entrevista bem conduzida pelo crítico francês Robert Valey. O programa foi feito no México, onde Buñuel morava. Aliás, morreu lá, em 1980. Valey conhece tudo da obra de Buñuel, mas sofre um pouco para entrevistá-lo. Primeiro, pela surdez do cineasta. Depois, porque Buñuel parece sempre estar um tanto à frente de todo mundo, com seu espírito mordaz, distanciamento irônico, seu humor cáustico.

As perguntas e respostas são entremeadas por depoimentos de outras pessoas próximas a Buñuel e também cenas de alguns dos seus filmes. Por exemplo, o primeiro, Un Chien Andalou (1928), em que ele e Salvador Dalí trabalharam no roteiro. Do segundo, L’Âge d’Or (1930), temos apenas fotos, porque, nos explicam na narração em off, o filme estava proibido (a série é dos anos 1960). Hoje tem até em DVD. Mas, durante muitos anos, na França, foi considerado obra sacrílega.

Buñuel conta muitas histórias. Uma delas achei divertida, em particular. Diz que faz seus filmes para os amigos. Se o público gostar, ótimo. E que adora quando provoca reações entre os amigos. Uma vez mostrou a um grupo O Anjo Exterminador. Depois encontrou um desses amigos na rua e este negou-se a apertar a mão do cineasta. Disse a Buñuel: “Por muito menos já mandamos fuzilar gente aqui no México”. E foi-se embora, sem se despedir. Um mês depois, mudou de ideia, passou a gostar do filme e reconciliou-se com o diretor.

Buñuel conta que coleciona armas. É sua paixão. “Tenho mais de 80 em casa”, diz. No entanto, jamais seria capaz de matar um passarinho. Um amigo francês conta uma história. Diz que Buñuel sonhava fabricar uma bala especial para espingarda, tão fraquinha que bateria no corpo de uma pessoa como uma pena e cairia no chão. Trabalhou anos na ideia e, por fim, a desenvolveu. Foi testá-la com uns anteparos que preparou. A bala “inofensiva” atravessou dois catálogos telefônicos, a parede da casa, o muro, e ainda furou a parede da casa do vizinho.

“Assim são os filmes dele”, conclui o amigo. “Ele coloca umas coisas em aparência inofensivas, mas que fazem um estrago danado”.

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