Gramado 2017. O bote sutil da Fera na Selva
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Gramado 2017. O bote sutil da Fera na Selva

Eliane Giardini e Paulo Betti dirigem adaptação da novela de Henry James sobre o homem que espera por um grande acontecimento em sua vida

Luiz Zanin Oricchio

24 Agosto 2017 | 10h19

 

GRAMADO – A Fera na Selva produziu uma sensação de estranheza tanto no público como entre jornalistas. O longa, baseado numa novela de Henry James, dirigido e interpretado por Eliane Giardini e Paulo Betti, co-dirigido e fotografado por Lauro Escorel, adota tom teatral e não naturalista.

Foi o que bastou para causar espanto. Décadas de hábito do cinema americano e mais a onipresente estética televisiva fazem que qualquer outro tipo de representação diferente do naturalismo soe “estranho” ao público brasileiro. No caso, a palavra “estranho” não tem qualquer conotação elogiosa. Muito pelo contrário. O filme chegou a ser definido como ovni, uma espécie de objeto cinematográfico não identificado.

Bem, ok, mas apenas para ficar nos nomes mais óbvios, Manoel de Oliveira, Jean-Marie Straub, Alain Resnais fizeram diversos filmes geniais, literários e não naturalistas. Em termos de impostação de voz, por exemplo, que outro poderia superar Gente da Sicília, de Straub-Huillet, tirado diretamente do texto de Elio Vitorini?

Enfim, estranhezas à parte, o texto de James fala de um homem e uma mulher, João e Maria, no caso brasileiro, que se reencontram dez anos depois de haverem se conhecido. Ela lembra que ele lhe fizera uma confidência a bordo de um barco: o de que esperava por um grande e talvez trágico acontecimento em sua vida. E, nessa espera, vivia em uma espécie de angustiante suspensão. Os dois tornam-se amigos, vão envelhecendo juntos, sempre à espera do tal “acontecimento”.

Os diretores ambientam a adaptação na região de Sorocaba, terra natal de Betti e Giardini. É bonito o modo como incorporam a cultura interiorana à planta baixa do edifício proposto por James. E mesmo, no meu caso, conhecendo o “desfecho” por ter lido a novela, curti o andamento da trama, tanto pela beleza dos cenários naturais quanto pelo som das palavras, escandidas por dois atores talentosos. Uma voz em off vai pontuando a trama, e essa voz é de José Mayer.

Imerso em sua cultura de origem, Betti incorpora ao elenco amigos e família. É, também, um filme de amizade, com tudo que de positivo (e negativo) isso pode implicar. E, claro, posso perfeitamente admitir que não se trata de obra para todos os gostos e que as pessoas têm todo o direito de sentir a sua estranheza como fato negativo e não gostar dessa sensação (que, no entanto, pode ser tão enriquecedora).

Divertido, Paulo Betti admite que não se trata de um candidato a sucesso de bilheteria. “Mas em Sorocaba pode se tornar um blockbuster”, ri.

Em filigrana, trata-se de um filme vindo de um texto filosófico, que trabalha como a nossa incapacidade de viver o momento e perceber o que se encontra diante do nosso próprio nariz. Olhamos muito para a frente, não percebemos o chão em que pisamos. E quando nos damos conta disso, talvez já seja tarde demais. A mensagem de James é ambígua e triste. A fera da selva dá seu bote de maneira sutil e traiçoeira. O filme trabalha essas ideias com justeza e beleza – para rimar.