Gramado 2017. ‘Los Niños’ e a nossa perplexidade
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Gramado 2017. ‘Los Niños’ e a nossa perplexidade

Filme da diretora chilena Maite Alberdi coloca em cena personagens portadores de Síndrome de Down, que desejam ser tratados como adultos, responsáveis e senhores dos seus atos

Luiz Zanin Oricchio

23 Agosto 2017 | 17h53

GRAMADO – Los Niños, de Maite Alberdi (Chile), causa certa perplexidade. A história é interpretada por portadores da Síndrome de Down. São adultos, alguns de meia idade, e frequentam uma instituição na qual convivem e trabalham.

A gente entende de cara o valor crítico do filme. Mesmo pessoas bem intencionadas procuram tratá-los com condescendência. No entanto, eles são adultos e desejam ser tratados como tais.

Alguns percursos particulares são abordados, mas o eixo fica com um casal, que deseja a independência, casar-se, viver junto e ter moradia própria. Há problemas. A começar pelo dinheiro, pois o que eles recebem como trabalhadores de uma confeitaria da instituição é claramente insuficiente.

Mas há em especial problemas familiares e legais. A família de um deles é contra. A mãe se opõe. Diz claramente que dedicou a vida à filha e não quer vê-la casada. Ficamos com o coração apertado, porque se trata de uma mulher de mais de 40 que está sendo tratada como incapaz.

E há o problema legal, explicitado por um padre. Como ele diz, no Chile (não sei como é no Brasil), os downianos são meio que considerados incapazes diante da lei e precisariam de autorização dos responsáveis para o casamento. O padre aceita casá-los, mas esse sacramento não tem valor legal numa sociedade em que o Estado é separado da Igreja.

Os irmãos do rapaz decidem de maneira unilateral tirá-lo da instituição, o que significa separá-lo da companheira.

Há algumas questões a considerar, também do ponto de vista cinematográfico, a maneira e estilo como essa situação é filmada. As cenas são, quase o tempo todo, registradas em superclose. Qual a função desse recurso, que às vezes parece invasivo?

Segunda questão: o quanto de Los Niños é um registro documental e quanto é encenado? Trata-se de uma ficção? Ou esta também é uma falsa questão, que não pôde ser confrontada porque a diretora não veio e não mandou nenhum representante à serra gaúcha?

Enfim, muitas interrogações. Sobra a nossa inquietação. E o nosso sentimento de impotência diante de problemas tão graves e para os quais não temos qualquer resposta.