Gramado 2017. ‘As duas Irenes’, a puberdade em espelho
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Gramado 2017. ‘As duas Irenes’, a puberdade em espelho

Forte concorrente em Gramado, 'As Duas Irenes' conta a história da garota de 13 anos que descobre que seu pai tem outra família e outra filha com a mesma idade e mesmo nome

Luiz Zanin Oricchio

22 Agosto 2017 | 14h40

GRAMADO – Como a demonstrar que a crise da família está em evidência outro concorrente de Gramado trata do tema. Trata-se do belo e inspirado As Duas Irenes, de Fábio Meira.

Irene (Priscilla Bittencourt) descobre que o pai, Tunico (Marco Ricca) tem uma segunda família e outra filha (Isabella Torres) com o mesmo nome e idade que ela.

As duas têm 13 anos. São pré-adolescentes e começam a explorar o relacionamento com o sexo oposto. Deixaram de ser crianças e não são adultas. Esse ponto de transição é fundamental para a construção da identidade. O que dizer a uma jovem nessa fase quando ela tem uma meia-irmã de mesmo nome e, para complicar, de temperamento oposto ao seu?

Essa relação em espelho das duas Irenes é o que o filme tem de mais criativo. No debate, brinquei com Fábio Meira dizendo que se famílias paralelas eram algo ainda relativamente frequente, mais rara era a perversão do pai que dá o mesmo nome às filhas das duas famílias. Para meu espanto, Fábio disse que, em sua pesquisa, constatara que esse hábito paterno era mais comum do que se supunha. A espécie humana é meio insondável mesmo.

Outra jogada inteligente é colocar a trama numa espécie de limbo temporal. Tudo se passa numa cidadezinha do interior (foi filmado na bela Cidade de Goiaz), não se vêem telefones celulares nem qualquer signo de modernidade. As músicas (Rita Pavone, Banho de Lua, Índia e outras) evocam os anos 1960. É fora do tempo, na verdade, uma espécie de Macondo à brasileira, com seus bailes de debutantes e bandas de música.

Ricca está impecável como o duplo patriarca, rígido porém amoroso. A ideia foi não não vilanizar o personagem e a interpretação de Ricca, como de hábito, prima por um minimalismo cheio de significados.

As duas meninas estão muito bem em suas funções de espelho uma da outra. O trabalho de ambas não é fácil, porque supõe uma curva dramática à medida que se influenciam mutuamente e passam a funcionar como referências cruzadas de identificação.

No fundo, o filme é sobre isso, sobre a identificação problemática numa situação de carência de modelos. Há uma engenharia de roteiro muito bem engendrada que trata desse processo de maneira lacunar, e deixa muito espaço para a imaginação (e para a intervenção) do espectador. O desfecho, inclusive, é aberto, para que a história continue com o público.

Mas, apesar do seu tom intemporal, As Duas Irenes evoca também o crescente protagonismo feminino, com as duas meninas a princípio apenas sujeitas da ação, tomando por fim as rédeas do seu destino e intervindo nessa situação familiar de equilíbrio instável. São o elemento de mudança num esquema que aparentemente funciona muito bem apenas para o pólo masculino da equação.

Nota-se que o trabalho de Meira é feito de uma depuração intelectual muito rigorosa. A maneira como incorpora elementos de sua própria história familiar e as transforma em ficção é prova disso. O cuidado em não conduzir o espectador a conclusões apressadas é outro. E o trabalho com um elenco que mescla estreantes a atrizes e atores muito experimentados (Ricca, Inês Peixoto, Susana Ribeiro e Teuda Bara) é bastante consistente.

Um belo filme, que convida ao pensamento e à reflexão afetiva. É, na minha opinião, um dos fortes candidatos desta edição de Gramado.