Eterna Jane *
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Eterna Jane *

Luiz Zanin Oricchio

15 Maio 2015 | 09h56

barbarella

No final dos anos 1960 Jane Fonda fez dois filmes, ambos marcantes em sua carreira, por motivos diferentes. Barbarella (1968), dirigido pelo seu então marido Roger Vadim, é uma ficção científica docemente trash, na qual Jane interpreta a personagem-título, roupas futuristas e sumárias, corpão de fora. No ano seguinte, totalmente despida, mas de glamour, trabalhou em A Noite dos Desesperados, de Sidney Pollack, tirado do livro de Horace McCoy sobre as consequências da depressão econômica dos anos 1930.

No cult inconsequente (mas delicioso) Barbarella, a beldade, maior sex symbol da sua era nos Estados Unidos; no drama social, a ativista, crítica da sociedade. As duas facetas compõem a personalidade de Jane Fonda. Uma das mulheres mais bonitas de sua época, mas também personagem do seu tempo, engajada em causas sociais e com pensamento político bem definido.

Numa época em que muitos astros e estrelas sentiam a necessidade de definir-se politicamente, Jane posicionou-se de maneira clara contra a Guerra do Vietnã, o que lhe valeu o apelido de Jane Hanói, posto, é claro, pela direita americana. Durante algum tempo discutiu-se se a pecha de esquerdista teria prejudicado sua carreira. A própria Jane se incumbiu de desmentir, dizendo que nunca fizera tantos e tão bons filmes quanto na época em que esse rótulo, supostamente pejorativo era voz corrente. De fato. Com Klute, o Passado Condena (1971), de Alan Pakula, Jane vence seu primeiro Oscar. E leva o segundo com Amargo Regresso (1978), de Hal Ashby, produção também sua, que marca a posição definitiva contra a presença americana no sudeste asiático. Condenação da direita pode ser currículo – e, pelo menos no seu caso, foi o que aconteceu.


Não que se importasse com o que diziam dela. Filha de Henry Fonda e de Frances Seymour Brokaw (que se suicidou em 1950, quando a menina tinha 13 anos), Jane sempre teve personalidade forte. O pai não queria que fosse atriz, mas ela se matriculou por conta própria no Actor’s Studio de Lee Strasberg para aprender o métier. Henry Fonda também era contra seu casamento com Vadim, tido como um sátiro de bom gosto, anteriormente casado com ninguém menos que Brigitte Bardot. Em plenos anos 1970, depois de separar-se de Vadim, Jane casou-se com o ativista político Tom Hayden. Mas a sua união mais famosa foi com Ted Turner, dono da CNN.

Além de atriz, Jane Fonda também foi produtora de vários filmes e conta-se que, nessa função, seu maior orgulho é ter produzido e atuado em Síndrome da China (1979), um alerta para os perigos da energia nuclear, mesmo quando usada para fins pacíficos.

É curioso que, com o casamento com Turner, em 1991, Jane tenha decidido colocar em banho-maria sua carreira de atriz e dedicar-se por inteiro à ginástica aeróbica. Verdade que a década de 1990, início da hegemonia ainda não terminada do pensamento neoliberal, não era lá muito apropriada para abrigar ativistas, ainda mais de esquerda. Mesmo assim, a dedicação integral de Jane ao culto do corpo é digna de espanto. Mesmo se pensarmos que seus vídeos de ginástica, alguns deles gravados quando ainda era atriz, venderam milhões de cópias, só nos EUA.

Com seu talento e beleza, poderia ter feito mais filmes. Em todo caso, é bom tê-la de volta.

* Textinho que escrevi como apoio a uma entrevista de Jane Fonda para o Caderno 2

 

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