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Aos mestres…com carinho

Luiz Zanin Oricchio

10 Março 2009 | 17h34

Assisti hoje de manhã a Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet. Palma de Ouro em Cannes, mix ficção/documentário muito, muito bom. História de um professor e sua classe-problema, um microcosmo da França contemporânea, multiétnica e cheia de contradições. Do filme eu falo depois, mas já adianto que é um anti-Ao Mestre com Carinho.

Falo agora é do alívio que senti na saída por não ser mais professor. Que trabalho insalubre, meu Deus! Na minha opinião, professor deveria ter salário maior do que presidente de multinacional. Já pensaram? Enfrentar alunos completamente desmotivados e agressivos pelas perifas da vida? E com esse salário que ousam pagar…!?

Eu pouco lecionei na vida. Um tempo na USP, como auxiliar de ensino, depois alguns anos na FMU e outros na PUC. Sempre ensino universitário. E mesmo assim…Me lembro de um dos meus últimos dias na PUC, quando pedi um texto aos alunos, já não me lembro bem sobre o quê, e apenas avisei que podia ser curto, de no máximo umas duas laudas. Um aluno olhou bem para mim e perguntou: “O quê? Niki Lauda?” Pensei que confundir página com o nome do então famoso corredor de Fórmula 1 fosse um gracejo, uma gozação. Olhei para ele e vi que não. Era só ignorância mesmo. Inocente ignorância. Nesse momento perguntei a mim mesmo: “O que estou fazendo aqui?” E, como vocês sabem, toda vez que nos fazemos esse tipo de pergunta é que já estamos de saída.

E, no entanto, se eu fosse pagar tudo o que devo aos meus professores, trabalharia a vida inteira em débito e ainda continuaria no vermelho. Houve um, não me lembro seu nome, que usava uma maneira criativa para incentivar os alunos a escrever. Se você apresentasse, num caderno, um texto novo por dia (que ele corrigia e dava sugestões) ia acumulando pontos e poderia passar de ano numa boa, sem fazer tanto esforço na gramática. Com esse incentivo, eu que já tinha uma certa tendência para escrevinhar, passei a colocar ideias no papel de maneira sistemática. Virou hábito. Pensar sob a forma escrita. Bem ou mal, escrever virou a minha profissão de adulto. Meu ganha-pão.

Tantos outros nomes importantes…Ruy Coelho, um dos fundadores da revista Clima (mas na época eu ignorava isso) era professor de antropologia. Mas falava de todos os assuntos, e os articulava entre si. Criava pontes e tratava o saber como um sistema de vasos comunicantes. Lembro dele, falando, sempre com um sorriso nos lábios, de suas viagens, entremeando o relato com referências literárias, musicais, psicológicas, enquanto fazia piadas e contava casos. Era um mestre na digressão organizada. Enquanto falava, deixando-se levar pelo fluxo dos próprios pensamentos, ficava brincando com um cigarro, que acendia apenas no final da aula. Talvez estivesse tentando parar de fumar. Ou diminuindo. Mais tarde, já na pós-gradução, fiz com ele um excelente curso sobre Literatura Fantástica, da qual ele era fã – e eu também. Ruy era um craque do saber com sabor, de que falava Barthes.

Lembro também de Marilena Chaui na Filosofia. Ao contrário de Ruy, Marilena é a disciplina intelectual em pessoa. Com ela estudei Descartes, logo no primeiro ano. Lemos as Meditações Metafísicas e, ao longo do curso, aprendi como se raciocina com rigor, passo a passo, encadeando ideias com método. Acho que foi no curso de Filosofia Moderna que ela nos pediu para trazer um plano de pesquisa e desenvolvê-lo. Eu já tinha um, esboço de tema da minha dissertação na Psicologia Clínica. Marilena, generosamente, me deu uma orientação completa, com ótima indicação bibliográfica, que muito me valeu na ocasião e talvez valha ainda hoje. Fazer uma pesquisa rigorosa em qualquer tema pode te preparar para a vida. Grande mestra, que é a entrevistada do mês na revista Cult. Eu não deixaria de ler. Afinal, o país não tem tantas pessoas assim, tão preparadas e éticas como ela. Aliás, tem bem poucas.

Enfim, essas pessoas são heróis e heroínas, militantes da trincheira que vai do ensino elementar ao universitário. Se cada um de nós olhar para dentro de si, verá que se tornou o que é graças à intervenção oportuna de mestres e mestras em alguns momentos decisivos da vida.

Vejam também o filme quando entrar em cartaz.