Em Brasília, ‘Rifle’, o lacunar faroeste gaúcho
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Em Brasília, ‘Rifle’, o lacunar faroeste gaúcho

Luiz Fernando Zanin Oricchio

22 Setembro 2016 | 11h27

 

Cena de

Cena de “Rifle”

 

BRASÍLIA – O primeiro filme da mostra competitiva, Rifle (RS), de Davi Pretto, conta uma história do meio rural gaúcho. Dione é um jovem que vive com a família na fazendola, numa região rural e remota. Um latifundiário pretende comprar as terras e, como se sabe, essa gente não aceita não como resposta.


Eis aí o fio de trama, num filme baseado muito mais em climas, imagens lentas e sugestões do que numa linha narrativa mais estruturada. No entanto, através dessa sugestão de atmosfera, com uma crescente tensão, Rifle dá seu recado, com o grande capital cercando os pequenos proprietários e tirando o chão precário onde se sustentam. Não é filme de sociologia. O título se refere a um “personagem” importante na trama.

Dois curtas deram início à competição nessa metragem: Ótimo Amarelo, de Marcus Curvello (BA), e Quando os Dias Eram Eternos, de Marcus Vinicius Vasconcelos (SP).

Ótimo Amarelo mostra um rapaz que retorna a Salvador depois de tentar a sorte em outra parte. Está só, meio bêbado e tenta se comunicar por skype com amigos. É quase como um solilóquio da decepção, a partir de uma constatação de torcedor – os jogadores não têm mais amor à camisa. Bebeto voltou ao Vitória, mas apenas como ponte para seguir carreira no Botafogo. O futebol, como se sabe, serve de modelo para análise da vida. O filme é esticado, aposta nos tempos mortos como fontes para reflexões sobre a vida. Bom, numa tendência contemporânea à fluidez e ao sentimento do “dépaysement”, como dizem os franceses. Banzo, mesmo estando em território próprio.

A animação Quando os Dias eram Eternos baseia-se em Kazuo Ohno com o personagem do filho voltando para assistir aos últimos dias de sua mãe doente. Terno, traço bonito e artesanal, emociona.

Em sentido de maior urgência, dois filmes femininos, ambos fora de concurso, chamaram a atenção ao longo do dia. Câmara de Espelhos, de Dea Ferraz (PE) convoca uma série de homens e os põe a falar sobre mulheres numa sala fechada. Assuntos como aborto, liberação sexual feminina, violência sexual, etc. Conclusão. Todos machistas, mas em graus variados. Ninguém sai impune de uma educação patriarcal e atrasada, como a do Brasil. Nem as mulheres.

Em Precisamos Falar do Assédio, Paula Sachetta (SP) usa outro dispositivo. No interior de uma van, mulheres que sofreram experiências de assédio sexual dão seus depoimentos. Podem falar de rosto aberto, ou usar máscaras e ter a voz distorcida caso se sintam ameaçadas. Os depoimentos são pungentes, mas só se surpreende quem acha que não existe sexismo no Brasil. Toda uma história de opressão se expressa através da fala dessas mulheres.

As sessões do Festival de Brasília – todas as sessões – têm sido marcadas por manifestações contra o governo Michel Temer. No meio cultural, o repúdio deve chegar à ordem de uns 90%, calculo. Setores importantes da opinião pública apoiaram o impeachment de Dilma. Mas, a julgar pelas pesquisas, não apoiam o governo que saiu do impedimento da presidente. Ou seja, as pessoas que foram às ruas para protestar contra o PT acharam que, saindo Dilma, viria o Messias para nos salvar.

A sociedade brasileira não está dividida. Está esquartejada. Esse é o resultado do golpe.

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