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Elite da Tropa provocou polêmica quando lançado em 2006

Luiz Zanin Oricchio

07 Outubro 2007 | 11h07

A polêmica com Tropa de Elite já começou um ano antes do filme, com o lançamento do livro em que se baseia e que traz as palavras invertidas em seu título – Elite da Tropa (Objetiva, 312 págs. R$ 39,90). É um típico “ficção baseada em fatos reais” e tira sua força da credibilidade dos autores, gente que “esteve lá”: Luiz Eduardo Soares é antropólogo e foi secretário nacional de Segurança Pública. André Batista é capitão da PM do Rio e foi membro do Bope durante cinco anos. Rodrigo Pimentel também pertenceu à PM e ao Bope, igualmente por cinco anos.

Quando foi lançado, em maio do ano passado, provocou reações fortes – afinal, lendo-se suas páginas e crendo-se que haja nelas muito de verdade, compreende-se afinal por que a criminalidade tornou-se não um problema a ser solucionado, mas parte integrante do próprio tecido social, envolvendo bandidos, policiais e autoridades. Para extirpá-la, a sociedade teria de cortar na própria carne, o que nem sempre está disposta a fazer; aliás, quase nunca.

Dividido em duas partes (Diário da Guerra e Dois Anos Depois: A Cidade Beija a Lona) e um epílogo, Elite da Tropa é um poderoso livro-denúncia, que não deixa de transmitir o que se propõe por meio de interessante elaboração literária. Na primeira parte, apresenta casos, alguns de teor ironicamente humanístico, como o do policial casado com uma prostituta. Outros, como Golfinhos de Miami, discorrem, sem qualquer disfarce, sobre uma teoria particular da tortura. Diz o narrador (pág. 35): “O assunto é violência. Quer dizer, a violência que a gente comete. Alguns chamam de tortura. Eu não gosto da palavra, porque ela carrega uma conotação diabólica. Acho que há casos e casos, e que nem toda tortura é tortura, na acepção mais comum do conceito.” Por quê?, se poderia perguntar. E a resposta não tarda: “Primeiro, porque só bati em vagabundo, só matei vagabundo.” Mas existe uma regra: “Não espanco nem mato mulher. A menos que seja em legítima defesa.”

Essa primeira parte serve para, além de apresentar o narrador e contar algumas histórias exemplares, mergulhar o leitor em certa ambiência com a qual ele não está habituado. Uma certa ética de conduta, valores que tanto são estranhos como têm a ver com a sociedade como um todo (o crime e o combate criminoso a ele não são o Outro da sociedade; fazem parte dela). Por exemplo, um sentimento positivo, como o orgulho, é apresentado como a argamassa mais sólida que cimenta a corporação. O policial do Bope, diz o livro, não ganha mais que seu colega da PM. Por que um se corrompe e outro não? Por orgulho, por um sentimento forte de “pertencimento”.

Não é o mundo ao avesso, mas é o mundo de uma maneira que não se está habituado a ver. Um mundo em que o bem e o mal estão entretecidos de tal modo que se torna impossível separar um do outro. Essa, a riqueza em filigrana de Elite da Tropa. Que, depois de preparar o leitor, o mergulha num intrincado caso em sua segunda parte, na qual as “premissas” da primeira se desdobram em conseqüências tão trágicas quanto alarmantes. É um mundo assustador que se descobre nesse livro. O nosso mundo.

(Estadão, Caderno 2, 5/10/07)