É Tudo Verdade 2017. Primeiros filmes
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É Tudo Verdade 2017. Primeiros filmes

Luiz Zanin Oricchio

22 Abril 2017 | 11h07

 

Michel Houellebecq e Iggy Pop: manual de sobrevivência

Michel Houellebecq e Iggy Pop: manual de sobrevivência

Começa mais uma cobertura do blog ao É Tudo Verdade e vou colocando aqui notas breves sobre filmes vistos. Não espere textos longos porque, durante um festival, é impossível escrevê-los. Não há tempo. São mais anotações mesmo, que compartilho com vocês na esperança de que possam ser úteis.

Vamos lá.

No primeiro dia de festival vi três filmes.

Abacus: Pequeno o Bastante para Condenar, de Steven James (EUA). O diretor vocês conhecem, é o mesmo de Basket Blues. Mas aqui os “heróis” são outros. Trata-se da família sino-americana Sung, que fundou o banco Abacus, em Chinatown, para atender à comunidade. Em 2012, o procurador-geral de Nova York, Cyrus Vance Jr., acusou-a de fraude hipotecária. O filme segue o processo, longo e custoso, e o esforço de defesa da família de banqueiros. Desvenda-se, ou é o que se pretende, um sistema judiciário perverso, que poupa os grandes e é rigoroso em demasia com os pequenos. Em especial, quando o banco opera na heterodoxa Chinatown, dédalo de pequenos negócios não de todo legalizados, em que redes familiares e de auxílio mútuo funcionam perfeitamente, embora pareçam escusos aos padrões rígidos dos anglo-saxões. Intrincado, o filme desvenda, a partir de um julgamento e de uma família, a complexidade de uma sociedade multiétnica, porém centrada em valores da classe dominante.

Permanecer Vivo: um Método, de Erick Lieshout (Holanda). Interessante diálogo entre o escritor francês Michel Houellebecq e o roqueiro estadunidense Iggy Pop. Em 1991, inspirado em histórias de vida de pessoas com problemas psiquiátricos, Houellebecq escreveu seu “manual de sobrevivência” mental, Rester Vivant. 25 anos depois, Iggy Pop o leu e encontrou pontos de convergência com sua própria experiência de vida. O filme mostra Iggy lendo trechos do texto, com sua voz profunda e por fim se encontrando com o autor. Personagens anônimos entram na história contando suas próprias experiências. São, muitas vezes, relatos terminais ou, pelo menos, à beira do abismo. Drogas, tentativas de suicídio, inadaptação social, internações. Tudo mediado pela arte que, tanto no caso de Houellebecq como de Pop, e também na dos demais personagens, parece ter efeito senão curativo, ao menos paliativo. Alivia. Permite que se arme uma estrutura mínima contra esse caos chamado existência. Caos que os mais sensíveis percebem talvez de maneira mais lúcida. E, por isso, sofrem mais. O filme não é despido de humor, acentuado, por paradoxo, pelo tom às vezes soturno de Iggy Pop, e depressivo, de Houellebecq. Toca, também, algumas questões estéticas das mais interessantes.

No Exílio: um Filme de Família, de Juan Francisco Urrusti (México). O mexicano Urrusti resgata a memória da família, que veio exilada da Espanha no rescaldo da Guerra Civil, vencida por Franco. Os quatro avós, uma tia e seus pais vieram num barco de carga, o Sinaia, depois de uma saga aventuresca com a fuga da Espanha e refúgio na França, após a travessia dos Pireneus. Conseguiram, por fim, embarcar em Sète rumo ao México, talvez o país mais acolhedor a refugiados de todo o mundo. O diretor gravou depoimentos dos parentes, já idosos, e usa as falas junto a cenas de arquivo mostrando a guerra, a morte, o sofrimento do povo, a arrogância fascista. São imagens impressionantes, em especial as do bombardeio selvagem de Guernica, massacre que completa 80 anos este mês. Filme feito “com o coração”, como disse o diretor, presente à sessão no Reserva Cultural, mas também com senso histórico e profundidade. O horror da guerra, a divisão das esquerdas no momento de enfrentar o fascismo, a solidariedade e o egoísmo, sentimentos torpes e generosos – tudo isso está lá, neste belo e emocionante documentário.

A programação com horários, cinemas e sinopses, você encontra aqui. Vale lembrar: os ingressos são gratuitos.

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