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Luiz Zanin

28 Janeiro 2016 | 19h15

10 mandamentos

A primeira coisa a ser dita é sobre algumas anomalias no ritual de lançamento de Os 10 Mandamentos. Primeiro, o filme não foi mostrado à imprensa e nem houve as tradicionais entrevistas em série com diretor, elenco e equipe técnica. Optou-se pelo mutismo total. Esconderam o filme, como se diz no jargão.

Outra, as pré-vendas que, segundo a distribuidora Paris Filmes, atingiram 3,2 milhões de ingressos. Não se sabe direito como foram comercializados, de que maneira foram distribuídos, qual o papel da Igreja Universal em tudo isso, etc. De qualquer forma, é um produto da TV Record, de propriedade da Universal, e resumo de uma novela que, pelo que sei, chegou a abalar a soberania da Globo no horário em algumas ocasiões. Ou seja, é algo digno de interesse.

Fui ver o filme num Cinemark em Santos, na sessão das 14h45. Na bilheteria não queriam vender. “Esgotado”. Insisti. Bem, havia uns lugares embaixo da tela, que em geral não são comercializados para não gerar reclamações. Aceitei. E entrei. Havia, até o começo dos trailers (todos de produções religiosas), meia casa, mais ou menos. Disse a quem me acompanhava: “Vai ser uma bilheteria artificial, com ingressos distribuídos a pessoas que não vêm ver o filme”. Mas tive de engolir o comentário logo em seguida. Quando o filme começou, pelo menos 90% da casa estava cheia, o que é uma ocupação e tanto, em especial nesse horário.

Há outros relatos, divergentes. Amigos me falam de salas não tão cheias. Um deles afirmou que. ao chegar ao cinema, a bilheteira lhe disse que a lotação estava esgotada. Mas, no final, o filme foi visto por sete pessoas, essa testemunha incluída. Enfim, dou meu depoimento pessoal, outros deem os deles e os estatísticos que quebrem a cabeça para saber quantas pessoas de fato serão atraídas pela produção.

Quanto ao filme em si. Esperava coisa pior. Em especial na montagem, pois não é mole colocar, com alguma coerência, uma novela inteira nas duas horas de duração de um longa-metragem. Mas a história está lá, com começo, meio e fim. Este, aliás, o fim, já prepara para a continuação – A Terra Prometida. E assim o mundo gira e o mundo, como se sabe, é dos espertos.

Se há algo que incomoda no filme é o excesso de closes, mas esta é a maneira que a origem televisiva cobra seu tributo para virar cinema. Concebido para a tela pequena, o projeto prevê a câmera sempre próxima dos personagens. Há muito close e poucos planos gerais. A direção de Alexandre Avancini é super careta e não ousa. Mas se pode dizer que é correta. Não compromete.

Claro, os diálogos são, muitas vezes, ginasianos, constrangedores até. Às vezes as mulheres parecem estar numa sala de estar em Ipanema e não no Egito. Uma delas, a certa altura espantada, exclama “Caramba!” Poderia ter dito “Caraca!”, e é o que deve ter pensado.

Como é um produto “para toda família” evitam-se cenas mais cruas. Evita-se, também, a intensidade emocional pedida por certas situações. Por exemplo, Ramsés e Moisés foram criados como irmãos. Quando se reencontram, são antagonistas. Mas não há qualquer paroxismo emocional que ilustre essa nova situação. Tudo parece muito burocrático e previsível.

De qualquer forma, as imagens, geradas para tela pequena, se aguentam razoavelmente bem na tela grande. Temia-se também pelos efeitos especiais. E estes existem em quantidade, em especial quando Deus manda sete pragas para atormentar o Egito do reticente Ramsés. Bem, a menos impressionante delas, se o termo cabe, é justamente a última, em que primogênitos serão sacrificados. O raiozinho fatal que entra pelas casas poderia aparecer num seriado dos anos 1950, sem fazer feio. Já a abertura do Mar Vermelho, que, ao que consta, gerou o maior ibope da novela, pode não ser tão impressionante assim. Mas passa pelo teste do ridículo.

A mensagem do “deus vingador”, do povo eleito, do monoteísmo, etc, pode ser mesmo muito primária. Parece destinada a um público específico, que não precisa e talvez não tolere muita ambiguidade. E, sendo que Os 10 Mandamentos se destina aos já convertidos, pode-se dizer que cumpre razoavelmente aquilo a que se propõe. Não é cinema (este é o ponto), mas passa o seu recado.

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