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‘Divines’, ou a Divina Grana
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CINEMA FRANCêS

‘Divines’, ou a Divina Grana

Luiz Fernando Zanin Oricchio

24 Fevereiro 2017 | 12h15

divines

 

Está disponível na Netflix o longa-metragem Divines, um dos principais concorrentes ao César, o “Oscar” francês que terá seus vencedores divulgados neste sábado. O filme já deu o Caméra d’Or, troféu para estreantes no Festival de Cannes, à sua diretora Houda Benyamina. Fala da periferia francesa e de uma geração de jovens que já não se conforma em ocupar lugar secundário (daí para baixo) na sociedade. Essa geração não quer revolução, nem pensa nisso. Quer Iphones, tênis de grife, glamour, roupas finas, enfim, todos os prazeres que o “fric” (grana) pode comprar.

O filme de Houda Benyamina dividiu a crítica francesa. Quem o amou fala de sua vitalidade, explosão, sinceridade, pulsão, humanismo. Quem o detestou cita sua direção fraca, exageros em alguns pontos, personagens pouco complexos.

A severa Cahiers du Cinéma diz que, sob o pretexto do “cinema popular”, Divines cai na mesma confusão política de sua protagonista: reivindicando seu direito a gozar dos prazeres capitalistas, o filme identifica-se, em sua linguagem, às formas (cinematográficas) do poder. A Nouvel Observateur não é tão sutil e fala de um “um objeto desesperadamente artificial e oportunista”.  O comunista L’Humanité deu cinco estrelas (nota máxima) e chama o filme de “tão brutal quanto a própria sociedade.” O descolado Les Inrockuptibles o classifica como “Um primeiro ensaio de uma energia louca, desdobrada em um discurso político e social hábil. Um filme popular, no sentido pleno do texto, combativo e emancipador”.

Divisões não faltam, como se vê, o que lança a hipótese de Divines ser um objeto tanto paradoxal como estimulante.

E, de fato, como se posicionar diante da protagonista, a rebelde Dounia (Oulaya Amamra), com sua insatisfação social profunda e sem rumo? A garota atira para todos os lados. Sofre com a mãe alcoólatra e desconta na professora, quase tão pobre como ela. Um dos momentos fortes do filme se dá quando ela afronta a mestra e a trata como fracassada, em seu conformismo com o salário de 1500 euros e obrigada a conviver com alunos como ela própria. Difícil simpatizar com Dounia neste momento.

O desafio para o espectador será encontrar empatia para seguir seus passos quando resolve trabalhar para a traficante local, Rebecca (Jiska Kalvanda),  e assim conseguir toda a grana de que se sente merecedora. Dounia tem uma amiga fiel, Maimouna (Déborah Lukumuena), que a segue e lhe dá suporte emocional.   

O filme mergulha, pelo lado feminino, nessa França profunda das periferias, das comunidades árabes e de negros, esquecidas pela elite branca e que por certo se encontram no radar racista dos seguidores de Marine Le Pen. A França das “nos chères têtes blondes” (nossas queridas cabecinhas loiras) despreza essa mistura racial e a confina aos bairros periféricos, onde não possa poluir a beleza da capital. Acontece que, como todo reprimido, este também tende a voltar e a explodir. A protagonista Dounia apenas expressa esse petardo de efeito retardado. 

Falando do que conhece, Houda Benyamina não pode evitar o tom de indignação social. Em 2006, ela fundou a Mille Visages (Mil Rostos), que promove a diversidade do cinema e forma jovens de periferia como atores. Dessas oficinas, sai parte do elenco de Divines, o que explica essa força sentida quando se exprime, de forma artística, sobre o real vivido, no cotidiano. É, também, à sua maneira, um filme político, característica expressa em alguns pontos da narrativa. Por exemplo, quando ao observar um grupo de bailarinos que ensaia, Maimouna faz uma consideração crítica que poderia ser dita por um especialista. Como a dizer que o sentido crítico e a fruição do belo não são e não podem ser privilégios de classe social.

No fundo, à sua maneira direta e catártica, Divines reflete sobre o ar do tempo, em que as utopias políticas se foram, mas nem por isso refluiu a insatisfação com os rumos do mundo. Digamos que é precisamente o contrário.

 

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