Dib Lutfi, o homem-câmera (1936-2016)
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Dib Lutfi, o homem-câmera (1936-2016)

Luiz Zanin Oricchio

27 Outubro 2016 | 11h34

Dib Lutfi, fazendo a câmera de 'Terra em Transe', com Glauber ao lado

Dib Lutfi, fazendo a câmera de ‘Terra em Transe’, com Glauber ao lado

 

Revejam Terra em Transe, a obra-prima de Glauber Rocha, e notem na linda e significativa movimentação da câmera que acompanha a tragédia política e existencial do protagonista Paulo Martins (Jardel Filho). Essa poética da imagem não existiria não fosse o homem manejar a câmera, Dib Lutfi, que nos deixou hoje aos 80 anos. Dib sofria do Mal de Helzheimer e vivia na Casa dos Artistas, no Rio de Janeiro. Foi o maior câmera do cinema brasileiro e um dos seus grandes diretores de fotografia.

Dib, como seu irmão, o compositor Sérgio Ricardo, nasceu em Marília, no interior de São Paulo. Mudou-se para Rio e terminou no cinema para, com sua genialidade, revolucionar o ofício. A tal ponto que foi apelidado de “homem tripé”, ou “homem grua”, tamanha a firmeza com que segurava o aparelho, e movimentava-o sem deixá-lo tremer. Além disso, fazia esses movimentos com suavidade, o que redundava em planos-sequência inimagináveis sem o seu talento. Conseguia isso muito antes da invenção do steady-cam, apetrecho que permite o deslocamento da câmera sem trepidações (usado por Kubrick em O Iluminado). Dib fazia isso na mão, de maneira artesanal. Num tempo de precariedade material do cinema, era um inventor de soluções técnicas sem igual. Os diretores que com ele trabalharam sabem disso.


Dib começou na TV Tupi, no Rio, manejando pesadas câmeras 16 mm e exercitando-se em programas de auditório com transmissão ao vivo. Enquanto isso estuda fotografia, por conta própria. Levado pelo irmão, começou a integrar-se ao mundo do cinema e frequentou o célebre seminário do sueco Arne Sucksdorff, que apresenta as novas técnicas de filmagem aos diretores brasileiros. O curso deu-se em 1962 e representou um marco para o moderno cinema brasileiro. Testando os novos equipamentos, Dib faz câmera e direção de fotografia para o filme Marimbás, de Vladimir Herzog, diretor e jornalista que viria a ser assassinado pela ditadura em 1975. Profissionalmente, Lutfi estreia com Esse Mundo É Meu, filme do seu irmão Sérgio Ricardo.

Dib é um experimentador tanto da câmera como da fotografia. Com essa dupla sabedoria, torna-se o profissional mais requisitado do Cinema Novo. Além do clássico Terra em Transe, de Glauber, trabalhou com diretores como Nelson Pereira dos Santos (em Fome de Amor, de 1968, e Azyllo Muito Louco, de 1969,), Arnaldo Jabor (Opinião Pública, de 1967, O Casamento, de 1975, e Tudo Bem, de 1978), e Ruy Guerra (Os Deuses e os Mortos, 1970). Trabalhou ainda nos filmes ABC do Amor (1966), de Eduardo Coutinho; Edu, Coração de Ouro (1967), Feminices (2004) e Carreiras (2005), de Domingos Oliveira; Os Herdeiros (1970), Quando o Carnaval Chegar (1972) e Joana Francesa (1973), de Carlos Diegues; Como era Gostoso o Meu Francês (1970), de Nelson Pereira dos Santos; A Lira do Delírio (1973), de Walter Lima Jr.; Pra Frente, Brasil (1981), de Roberto Farias; Harmada, de Maurice Capovilla; Vida e Obra de Ramiro Miguez (2002), de Alvarina Souza Silva; e 500 Almas (2004), de Joel Pizzini.

O trabalho de Dib está registrado em alguns filmes. No média-metragem Cinema Novo (1967, 31’), Joaquim Pedro de Andrade mostra como ele se tornava co-autor dos filmes de que participava. A extensão da sua influência no cinema brasileiro é exposta em outro média, Dib(1997), de Márcia Derraik e Simplício Neto. E no documentário Iluminados, de Cristina Leal, Dib dá um excelente depoimento sobre a sua arte.

Sempre nos dizemos que o cinema é arte coletiva, mas continuamos sob o primado do diretor, que, afinal, é quem orquestra os talentos sob sem comando. Mas, muitas vezes nos esquecemos da contribuição desses talentos na autoria dos filmes. Ainda mais quando se trata de um gênio, como Dib Lutfi, a quem muito mais importância deveria ser dada no resultado final do filme. Afinal, quando Glauber dizia que o Cinema Novo era uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, era, provavelmente, em Dib Lutfi que pensava. A mão e o olho de Dib estão inscritos na linguagem desses filmes.

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