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Diário do Olhar de Cinema 2014 – Perifa na fita

Luiz Zanin Oricchio

03 Junho 2014 | 11h30

 

CURITIBA – Dois filmes do Olhar de Cinema põem foco na realidade da periferia brasileira – e o fazem com absoluta originalidade. A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa, e Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, não insistem na mesma linguagem que tem caracterizado os registros do cinema nacional sobre as periferias do País. Inovam, e apresentam resultados surpreendentes, não apenas pela invenção, mas pelo impacto do retrato.

Em A Vizinhança do Tigre, Uchoa acompanha a vida de cinco garotos do bairro Nacional, periferia de Contagem, em Minas Gerais. É um filme construído, em que os registros foram sendo tomados ao longo dos anos e uma linha narrativa foi construída, ou, na verdade, foi encontrada, anos depois, na montagem. Há muita improvisação e claramente os personagens respondem a estímulos do cineasta e então passam a encenar situações que são as de suas próprias vidas e circunstâncias sociais. Passa muita espontaneidade e também alguma prolixidade. No entanto, o retrato dessa juventude em situação de perigo, exposta às tentações da droga e da violência, são nada menos que impactantes.

Mais original ainda é Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, ele próprio morador de Ceilândia, cidade-satélite de Brasília. Ao invés de denunciar a segregação entre o Plano Piloto da Capital Federal e as diversas satélites que se desenvolveram em seu entorno, ele imagina uma situação de ficção científica – em 2070, é necessário um passaporte para que o morador da periferia possa penetrar no espaço da Capital. As cidades são extremamente vigiadas e as polícias garantem a paz à custa de medidas como o toque de recolher. Na verdade, é uma distopia.

Na trama, um cadeirante, um homem que usa perna mecânica e um enviado do futuro interagem numa história de humor macabro, muito som de rap e uma ironia triste, que deságua num apocalipse, este sim resolvido de maneira um tanto precária.

Mas de qualquer forma, a precariedade é algo assimilado à própria linguagem dos filmes – e transformada em signo de vigor criativo. Ambos são bastante impressionantes e abrem novas vertentes de percepção social pela janela do cinema. Desconfio que ainda vai se falar bastante sobre esses dois filmes e esses dois realizadores.

Há uma nova sensibilidade por aí, sem o miserabilismo de realizaçoes anteriores, sem o sentimento reativo do oprimido. As periferias passam à ofensiva.

 

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