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Diário de Veneza 2014 – Pacino, Deneuve e mais alguma coisa

Luiz Zanin Oricchio

01 Setembro 2014 | 08h38

VENEZA – Seja no papel de ator em crise ou de humilde serralheiro, quem brilhou
mesmo no fim de semana em Veneza foi Al Pacino. Ele está em dois
filmes e desembarcou no Lido de óculos escuros e distribuindo charme.
Um dos filmes, na disputa pelo Leão de Ouro, o outro, fora de
concurso. Em ambos, a alma da história é este ator que já foi Michael
Corleone na saga do Poderoso Chefão, cego mulherengo em Perfume de
Mulher e tantos outros papeis que o consagraram como figura universal.

Aqui em Veneza, Pacino vem com títulos talvez menos memoráveis, mas
pelo menos bons. Em The Humbling (baseado no romance de Philip Roth, A
Humilhação, na versão brasileira) ele faz o ator que começa a esquecer
suas falas no palco. Em busca, talvez, da juventude perdida, se
apaixona por uma ninfeta bissexual (Greta Gerwig, de Frances Ha),
filha de um casal de amigos. O filme é dirigido por Barry Levinson, e
passou fora de concurso. Sobre o personagem, Pacino diz que é “um
modelo de angústia”, embora as filmagens tenham se desenrolado em
clima de total relax. Ele mesmo se disse uma pessoa de bem com a vida,
sem qualquer dos problemas existenciais que afetam o personagem, “Mas
entendo que ele tenha pontos de contato com cada um de nós”.

Diz também que Simon Axler, seu personagem em A Humilhação, ilustra
bem a fatiga do ator, obrigado a entrar no universo de Shakespeare
pela vida afora e exaurindo-se com isso. Ele mesmo diz sentir esse
peso, embora “as pessoas achem que a vida do ator é feita de glamour”.

A história contada por Roth é potencialmente pesada. Em busca da
juventude, Simon encontrará em seu novo relacionamento apenas uma
modalidade diferente de inferno pessoal. A trama pode ser uma
advertência a quem busca amores com muita diferença de idade e mostra
o preço que o derradeiro uivo pode custar a um lobo solitário. É bom
filme, nada genial, mas ganha com a opção de Levinson ao lhe dar um
toque de humor, embora muitas vezes sarcástico, que cai bem na voz
rouca de Pacino. “A chave da história reside em uma das cenas
iniciais, quando meu personagem, no camarim, antes de entrar em cena,
segura duas máscaras, uma representando a tragédia, outra, a comédia”,
diz o ator. Trata-se de uma antiga simbologia do teatro, a mostrar que
o destino humano caminha entre lágrimas e risos, e uma dimensão
tempera a outra.

De certa forma, o personagem de Pacino em Manglehorn, dirigido por
David Gordon Green, este sim em concurso pelo Leão de Ouro, parece
ainda mais patético que o de ator envelhecido em A Humilhação. Na
história, Angelo Manglehorn é um serralheiro solitário, que vive com
seu gato e suas lembranças. Entre elas, a principal, a de certa mulher
que o encantou para toda a vida e que ele perdeu. De tal modo que não
é capaz de enxergar a oportunidade de recomeço oferecida pela caixa do
banco (Holly Hunter, ótima no papel). O filme é interessante, sem ser
brilhante. Acena com um final feliz que não soa despropositado. Seria
banal sem Pacino. Já com ele, sobe alguns degraus na escala da
qualidade. Com todo seu carisma, é capaz de fazer um personagem
desastrado e absolutamente inconsequente nas relações com o filho e as
mulheres. Mesmo assim, torcemos por ele. Coisas de um grande ator,
que, aos 74 anos, contabiliza dezenas de filmes mas adverte: “Se minha
carreira fosse um avião, eu diria que está longe do ponto de
aterrisagem”.

Musas.

A presença de Pacino no Lido foi tão marcante que até ofuscou um pouco
a passagem de três musas do cinema, a eterna Catherine Deneuve, sua
filha Chiara Mastroianni e a corajosa Charlotte Gainsbourg. Elas estão
no elenco de 3 Coeurs (Três Corações), de Benoît Jacquot, que também
concorre aos prêmios em Veneza. O filme pode ser definido como uma
espécie de thriller amoroso, segundo seu próprio diretor. Um fiscal de
impostos (Benoît Poelvoorde, visto há poucos dias aqui em La Rançon de
la Gloire) perde o trem numa cidade de província e por acaso inicia um
relacionamento rápido com Sylvie (Charlotte Gainsbourg). Os dois
marcam encontro em Paris, mas a coisa não dá certo. Sylvie apenas
reentrará em cena na vida do homem quando ele volta à cidadezinha e,
também por acaso, conhece a sua irmã, Sophie (Chiara Mastroianni).

Há certa inteligência na maneira como Jacquot retrabalha as estruturas
do thriller e do melodrama. A série de coincidências, os amores
ameaçados, a tentativa de completar um relacionamento deixado pela
metade – tudo isso redunda num filme gostoso de ver. Prende a atenção
e, claro, o elenco funciona como relógio. São todos ótimos, a começar
por Poelvoorde, cujo físico não combina com o de um galanteador, mas
ele nos convence de que pode mesmo seduzir todas aquelas  mulheres. Em
especial, a dupla de irmãs, formada por Charlotte e Chiara, dá encanto
particular a esse trabalho. Catherine tem participação pequena, mas,
mesmo que ficasse 10 segundos na tela, nos lembraríamos dela.

Outro filme francês do fim de semana, Loin des Hommes (Longe dos
Homens), de David Oelhoffen, baseia-se em uma história curta de Albert
Camus. Na Argélia dos anos 1950, ex-militar e agora professor de
escola elementar é convocado para escoltar um prisioneiro até a
fortificação francesa, através do deserto. O professor é vivido por
Viggo Mortensen, que interpreta em francês, árabe e espanhol.
Convence. O filme tem a espinha dorsal confessadamente apoiada no
faroeste, como gênero. A travessia do deserto, o nascimento da amizade
entre homens antagonistas, as noções de honra e lealdade – tudo isso
está lá, neste filme bem fotografado e que às vezes impressiona, sem
nunca nos conquistar por completo.