Diário de Paulínia  2014 – Começa a maratona, com bons filmes
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Diário de Paulínia 2014 – Começa a maratona, com bons filmes

Luiz Fernando Zanin Oricchio

24 Julho 2014 | 10h09

 


É pegar ou largar. Festivais de cinema viraram maratona, ou porque os patrocinadores assim o exigem ou porque os curadores entendem que mais é…mais. Seja como for, venceu a fórmula de apresentar o maior número de filmes no mais curto espaço de tempo. Deve ter a ver com o ideal de produtividade que rege, se o termo cabe, a nossa vida contemporânea. Enfim, é isso. Em geral, sacrifica-se a qualidade pela quantidade.

Por sorte, em seu primeiro dia, a maratona proposta por Paulínia justifica-se. Vimos filmes que justificam o esforço, a falta de tempo para comer ou ir ao banheiro, ou dormir. Isso porque, é bom lembrar, festivais não se compõem apenas de filmes a serem vistos. Há as horas consagradas ao debate das obras, as entrevistas, e o tempo para quem é jornalista poder simplesmente escrever e transcrever para o leitor o que ocorre. É uma correria danada. A única exceção é o Festival de Brasília, que voltou à sua forma depurada tradicional este ano.

Desabafo e esclarecimento feitos, vamos aos filmes de ontem.

Começo pelo principal, embora tenha sido o último a ser apresentado e que começou quase à meia-noite, com a sala já bastante esvaziada pelo cansaço e pelo horário. Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, é um originalíssimo musical fúnebre, quase inteiramente ambientado em um cemitério e com coveiros e funcionários do serviço funerário como protagonistas. Deodato é um coveiro aprendiz que desmaia com a presença de cadáveres. Ele só se entusiasma com o emprego quando chega uma nova funcionária disposta a repaginar o cemitério, aplicando técnicas modernas de gestão empresarial. Original, divertido, crítico e brechetiano, Sinfonia na Necrópole é um grande acontecimento em nosso medíocre panorama cinematográfico atual.

Aprendi a Jogar com Você, de Murilo Salles é um documentário que destoa da mesmice do gênero no Brasil. Assume a técnica do cinema direto e reconstrói o cotidiano de Duda, um DJ da periferia e virador profissional, tentando sobreviver e agenciar shows nas margens do sistema musical. Duda seria um exemplo do surrado jeitinho brasileiro, não fosse ele mesmo um hábil malabarista da sobrevivência. A câmera acompanha o personagem de próximo e com empatia, nunca julgando, talvez nos oferecendo uma possibilidade de compreensão de uma vida que não é a nossa (falo do ponto de vista da classe média, a dos cineastas e também do público).

O Samba, de Georges Gachot. Um belo documentário deste franco-suíço, que deveria ser eleito brasileiro honorário pelo trabalho que vem fazendo pela música brasileira – são dele dois documentários anteriores sobre cantoras, um sobre Maria Bethania, outro sobre Nana Caymmi. Neste, ele vai mais fundo, às raízes do mais fundamental ritmo brasileiro, o samba. Tendo Martinho da Vila como mestre de cerimônias, e a escola Unidos de Vila Isabel como palco, Samba mostra não apenas o enraizamento popular da música como seu caráter refinado. Martinho diz coisas muito inteligentes, e canta, com sua voz característica, alguns dos seus sucessos. Mas há uma estrutura no filme, que vai além da simples apresentação de números musicais. É como vermos imergir, por meio da música, um país em geral escondido e oculto, que se torna visível apenas pelo filtro marqueteiro do carnaval. E, no entanto, essa substância continua tendo existência real. É nosso cerne mesmo. E Gachot o descobre, amorosamente, como não conseguem fazer os brasileiros natos.

Menos interessante e mais pretensioso é Neblina, documentário de Daniel Pátaro e Fernanda Machado que tenta fazer de Paranapiacaba uma espécie de metáfora do capitalismo mundial e suas transformações. A cidade, encravada na Serra do Mar, recebeu pesados investimentos ingleses no século 19. Era por lá que passavam as mercadorias, que chegavam e partiam pelo Porto de Santos e vinham ao Planalto pela Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. A ferrovia foi abandonada e só se veem os restos arqueológicos de sua passagem. Ciclos do capital. No entanto, há um discurso que se impõe ao filme e determina a escolha das imagens. Como se não fosse um documentário de descoberta e sim a ilustração da tese, que inclui ideias marxistas e as tempera com as de Louis Powells e Jacques Bergier, autores de O Despertar dos Mágicos, livro que fez as cabeças místicas dos anos 1960 e, pelo jeito, ainda continua fazendo a dos jovens atuais.

Houve também dois curtas. Jessy, interessante mergulho na cena transformista baiana e a animação O Menino que Sabia Voar, sobre a experiência de quase morte.

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