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Diário de Brasília 2014. Nó em Pingo d’Água

Luiz Zanin Oricchio

20 Setembro 2014 | 14h21

 

BRASÍLIA. Me pareceu bastante problemático o filme Pingo d’Água, de Taciano Valério. E, com isso, quero dizer que o filme merece mais que a atitude encomiástica de quem o considera acima de qualquer crítica, ou a recusa in totum de quem foge da sua suposta incompreensibilidade.
Durante o debate, questionei a obra pelo ângulo do seu deliberado esvaziamento de sentido. Por um lado, me parece um processo datado, já usado pelo surrealismo nos anos 20. Por outro, não me parecia acrescentar nada em termos de inteligibilidade da modernidade, funcionando mais como psicodrama grupal que como articulação (ainda que áspera) com o público.
Quem respondeu melhor foi o ensaísta Jean-Claude Bernardet, agora em sua fase de ator. Ele faz parte do filme. É mesmo seu ator principal, isto se trabalho tão insólito comportasse esse tipo de hierarquia. De acordo com Bernardet, Pingo D’Água é mesmo um filme desprovido de sentido. Mas, atenção. Esta afirmação não significa uma apreciação negativa. Pelo contrário. O ensaísta refere-se a um texto de Flaubert, no qual o escritor francês diz desejar escrever um texto completamente sem sentido, desafio que nunca conseguiu vencer.
E, de fato, algumas cenas isoladas fazem sentido. O conjunto, não. A não ser que você se valha de categorias mecânicas. Por exemplo, a cena em que o ator se enfia por completo dentro de uma mala, pode referir-se ao retorno ao útero materno, em registro de psicanálise de autoajuda. Há no filme brigas de casais que, sabe-se, remetem a disputas da vida real. Alguns momentos inspirados, como a dança ao som de um conjunto sertanejo, que toca um tango, etc.
Não forma um todo, um conjunto. E nem era para formar.
Tudo isso deu numa bela discussão, que precisaria ser aprofundada, é claro. Não adianta, a meu ver, se refugiar em explicações como sendo ” da ordem do rizoma” (sic). Categoria epistemológica de Deleuze e Guattari, que vem sendo usada a torto e a direito, inclusive por ideólogos da campanha de Marina Silva. Ou, evocar as sempiternas escusas do “afeto” e dos “sentimentos” como se pertencessem à ordem da argumentação. Quer dizer, o afeto surge como traço de união de obras que não dispõem de outro elo a ligá-las. Ou o sentimento aparece como aquilo que se tem ou não se tem em relação a uma obra, e que, portanto, permanece aquém ou além das discussões.
 Tudo isso é um pouco sintoma do irracionalismo contemporâneo, a sustentar  que devemos sentir, mas não pensar. Mais graves são as insinuações de que quem não adere ao consenso do grupo no fundo é fascista. Uma forma de pensar defensiva, binária, que, curiosamente adjetiva de “binária” qualquer contestação. É interessante, mas não incomum, essa comunhão do pensamento de suposta vanguarda com a posição totalitária. Quem não está conosco está contra nós. Assim pensam apóstolos da suposta inovação estetica, que costumam conviver em grupos fechados, autoalimentados por elogios mútuos.
Mas, passemos. Não é função da crítica ficar passando a mão na cabeça de cineastas.  Ou engrossar consensos adiposos com frases feitas e laudatórias. No fim, modestamente, queremos apenas colocar as obras em perspectiva, quando não em crise – exatamente como determinado tipo de filme tenta fazer ao questionar sua tradição e um hipotético cânone estético.
Só que a crítica se obriga a fazê-lo com as ferramentas da razão.