Diário da Mostra 2012: tsunami de filmes
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Diário da Mostra 2012: tsunami de filmes

Luiz Zanin Oricchio

23 Outubro 2012 | 22h35

 

Todo ano é a mesma coisa. Mergulho de cabeça na Mostra, pelo menos nos primeiros dias. São tantos filmes que fico sem ter como escoar, no jornal, ou mesmo no blog – aqui, por mera falta de tempo. O jeito é dar uns flashes dos filmes interessantes, sobre os quais eventualmente voltarei.

Hoje mesmo vi cinco que merecem atenção.

Pela manhã, em sessão da imprensa, o fortíssimo Além das Montanhas, do romeno Cristian Mungiu (aquele do polêmico filme sobre o aborto, Quatro Meses, Três semanas, Dois dias).

Em Além das Montanhas, Mungiu fala de duas amigas que se internam num monastério. Há uma tensão erótica mal resolvida entre elas. Uma parece ter encontrado sua vocação religiosa. A outra, não. Age como possuída. O  ato de exorcismo é de uma violência poucas vezes vista. Esqueça O Exorcista. Aquilo é brincadeira de criança. No sentido literal e no figurado.

O Dia que Durou 21 Anos, de Camilo Tavares. Vi este logo depois do almoço. É um dos docs mais completos sobre a conjuntura que levou ao golpe militar de 1964. Com excelentes imagens pesquisadas em arquivos, Camilo reconstitui a responsabilidade dos Estados Unidos no golpe de estado, através do então presidente John Kennedy e, após seu assassinato, Lyndon Johnson, continuador de sua política. Camilo é filho de Flávio Tavares, um dos presos políticos trocados pelo embaixador americano Charles Burke Elbrich.

O Rabanete e a Cenoura e O Paraíso dos Bêbados, ambos do japonês Minoru Shybuya, que ganha retrospectiva nesta Mostra. Ambos muito interessantes. O primeiro, de um roteiro herdado de Ozu, discute, em termos cômicos, se o termo cabe, a questão do saber ou não saber. No caso, amigos discutem se devem alertar um companheiro de que ele sofre de câncer e não de úlcera, como acredita. O segundo, parece também tomar o caminho da comédia, mas muda de direção a certo ponto e cai na complexidade da situação de uma mulher que se apaixona pelo assassino do próprio marido. Denso, muito bom.

Liv & Ingmar – Uma História de Amor, de Dheeraj Akolkar, documentário sobre a tempestuosa relação entre a atriz Liv Ullmann e o cineasta Ingmar Bergman. É um longo e lúcido depoimento de Liv, entremeado de cenas dos filmes que fizeram juntos, como Persona, Vergonha e Sonata de Outono, além de registros domésticos e imagens de making of. Não é fácil conviver com um gênio e Liv não poupa os detalhes ao espectador. Ao mesmo tempo, admite que foi uma relação para toda a vida, mesmo quando se separaram. E diz que, de Bergman, recebeu o maior elogio de toda a sua carreira: “Você é o meu Stradivarius”, disse o diretor à atriz. Liv trabalhou com Bergman até o último filme dele, Saraband, uma espécie de continuação de Cenas de um Casamento.

Liv & Ingmar é lindo e recebeu um longo aplauso ao final. Para quem, já que não havia ninguém do filme por ali, na Cinemateca? Talvez para nós mesmos, que saíamos melhores depois de termos visto o que vimos.

 

 As informações de salas e horários, você encontra no site da Mostra: www.mostra.org

 

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