Diário da Mostra 2012: o dinheiro e sua sombra
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Diário da Mostra 2012: o dinheiro e sua sombra

Luiz Zanin Oricchio

24 Outubro 2012 | 09h07

No cinema de Manoel de Oliveira há algo de intemporal que, paradoxalmente, se liga bastante, quando bem pensado, ao tempo presente. Essa característica dúbia fica bem evidente em O Gebo e sua Sombra, seu filme mais recente, apresentado em setembro no Festival de Veneza e agora trazido à Mostra.

O velho mestre, de 104 anos, não foi a Veneza e nem agora vem a São Paulo. Teve uns problemas de saúde e os médicos lhe proibiram o avião. Mas, segundo os seus conhecidos, já está aprontando novo filme, para manter a média de um por ano. E este próximo pode ser baseado em A Igreja do Diabo, conto de Machado de Assis, como disse ao Estado o ator português Luiz Miguel Cintra, na Itália. “Ele está muito bem e trabalhando no roteiro de A Igreja do Diabo”. Esperemos. Sem dúvida, a dubiedade de Machado neste conto em que o bem aparece apenas contra o pano de fundo do mal e vice-versa será inspirador para o cineasta.

De certa forma é também o que ocorre com Gebo e a Sombra, baseado numa peça dos anos 1920 do dramaturgo português Raúl Brandão. Gebo, contador e cobrador de uma firma, é interpretado pelo grande ator francês Michael Lonsdale. Sua mulher, Doroteia, é vivida por Claudia Cardinale. O filho, João, por Ricardo Trêpa, neto do diretor. A mulher de João, por Leonor Silveira. Jeanne Moreau faz uma vizinha intrometida. Leonor, Cintra e Trêpa fazem parte da trupe habitual de Oliveira. O resto do elenco dá ideia do prestígio internacional a que chegou o cineasta português.

A locação é única, a sala de uma casa modesta, onde Gebo, em seu caderno de anotações, faz e refaz cálculos, noite adentro, não sabemos exatamente com que propósito. Bebe café para se manter acordado e diz que trabalha tanto, apesar da idade, para que a família não morra de fome. Do filho, apenas se fala, no início. A mãe espera por sua volta. Não sabemos ao certo onde está, se partiu ao estrangeiro, se esteve na prisão, o que fez. Algo de bom não foi, a julgar pelo que dele dizem, entre sussurros, Gebo e sua nora, a quem trata de filha.

O ambiente é soturno. A fotografia, magnífica é construída de meios tons, como iluminada apenas pelos candeeiros que se veem em cena. É propícia para um ambiente no qual tudo é dito a meias, nunca diretamente, porque se trata de preservar, acima de tudo, a figura da mãe, que pede notícias do filho. Este, quem será? Um herói, um ladrão. Mas os filhos não são sempre heróis para suas mães?

Gebo é, então, um mantenedor do mito materno. Consagra sua vida a isso. Uma vida miserável, a bem dizer, feita de pobreza, privações materiais e morais porque tem sempre de se consagrar a esconder alguma coisa de alguém.

A certa altura da trama, o espectador fica bem curioso para saber afinal quem é este João, de quem se fala e não se vê. Verdade, ele pode ser um criminoso. Mas pode ser também um ser da liberdade. Num espaço cênico (convém defini-lo assim) em que tudo se assemelha a uma prisão, o filho parece ser o único com possibilidade de ser definido como livre. Não à toa, os planos iniciais do filme mostram a imagem de um porto, um navio que parte. Há toda uma simbologia associada à embarcação, a viagem, ao deixar para trás tudo aquilo que significa um grilhão para o homem. Ver novas terras, conhecer novas pessoas. Não acaso, o narrador de Moby Dick, Ismael, dizia que quando o pensamento da morte vinha lhe assaltar, embarcava depressa no primeiro navio que encontrasse. É uma imagem bastante presente na literatura e também no inconsciente coletivo humano.

Manoel trabalha fundo nessas relações inconscientes. Depurou tanto seu estilo que, num filme como esse, contenta-se quase com a locação única, sem disfarçar a origem teatral do texto. Essa simplicidade da mise-em-scène não esconde o que existe de profundo na obra. Antes, ressalta essa complexidade, remetendo a uma pobreza à la Dickens e, acima de tudo, a onipresente relação ao dinheiro de que falava Balzac. É o dinheiro que comanda todas as ações e sentimentos, assim como o destino dos personagens. Se Gebo e a Sombra, como disse Manoel, é um drama sobre a honestidade, é também sobre a cobiça. Sempre há essa dubiedade nos assuntos humanos.

 

SESSÃO DATA SALA
535 24/10 – Quarta-feira – 21:30 CINESESC
990 29/10 – Segunda-feira – 17:00 Cinemateca – Sala BNDES
1084 30/10 – Terça-feira – 22:40 Livraria Cultura – sala 1
1145 31/10 – Quarta-feira – 19:00 Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca – Sala 3