Diário da Mostra 2012: Miradas Múltiplas, a foto-pintura de Gabriel Figueroa
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Diário da Mostra 2012: Miradas Múltiplas, a foto-pintura de Gabriel Figueroa

Luiz Zanin Oricchio

29 Outubro 2012 | 09h20

 

Um filme de Gabriel Figueroa. É muito raro que o nome do fotógrafo se sobreponha ao do diretor mas muitas vezes era o que acontecia quando o mexicano Figueroa (1907-1997) assumia a direção de fotografia de algum filme. Tinha uma assinatura visual inimitável. Sua trajetória no cinema é contada nesse belo documentário de Emilio Maillé Miradas Múltiplas – o Universo de Gabriel Figueroa.

Para mostrar como essa assinatura se impunha, Maillé usou abundantemente trechos de filmes fotografados por Figueroa. E ouviu alguns dos maiores fotógrafos do mundo, entre eles brasileiros como Lula Carvalho e Walter Carvalho, Lauro Escorel, Affonso Beato e Cesar Charlone (uruguaio radicado há muito no Brasil). E também monstros sagrados do métier, como Raoul Coutard, Vittorio Storaro e Giuseppe Rotuno.

Eles são unânimes em afirmar a força expressiva das imagens conseguidas por Figueroa, que trabalhou muito com seus conterrâneos Roberto Gavaldon e Emilio “Índio” Fernandes, mas também com gênios com Luis Buñuel (O Anjo Exterminador), John Ford (O Fugitivo) e John Huston (À Sombra do Vulcão).

Nota-se no trabalho de Figueroa toda uma preocupação pictórica muito pensada e consciente. As imagens falam “por si”, e não servem de muletas aos diálogos, como acontece com muita frequência hoje. Figueroa tinha consciência da escultura do rosto dos personagens. Por exemplo, fotografou como ninguém o rosto belo e dramático da atriz Maria Félix. Tratava o quadro cinematográfico como um tableau, que precisa expressão e volume para existir. Por isso, ficaram famosas as “nuvens de Figueroa”. Gostava dos céus nublados porque são as nuvens que dão volume à imagem. Trabalhava com luz e com sombras e fez do preto e branco seu registro favorito, embora tenha deixado muitos e belos filmes em cores.

Figueroa, que esteve na Mostra em 1995 e deu entrevista ao Estado, era expressão top de uma época em que o cinema, mesmo o comercial, cultivava o apuro visual. Depois veio a era dos block busters e tudo virou um pudim, com as exceções de praxe. Figueroa ficou como ícone de um tempo em que fotógrafos eram também pintores.

 

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