Diário da Mostra 2012: La Noche de Enfrente
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Diário da Mostra 2012: La Noche de Enfrente

Luiz Zanin Oricchio

30 Outubro 2012 | 09h06

 

O nome poético permaneceu em espanhol. Assim como Jorge Luis Borges deu a um seu poema o título de La Luna de Enfrente, o cineasta chileno Raúl Ruiz chamou seu testamento cinematográfico de La Noche de Enfrente. Estava já muito doente, tinha a morte diante de si, mas deixou como legado um filme belíssimo, cheio de vida, cor e mistério.

O filme é também um reencontro de Ruiz, durante décadas radicado na França, com seu país. Percorre o Chile de Santiago a Antofagasta, passando pelas cidadezinhas de Quilpé e Villa Alemana. Sempre pelo olhar de um menino, espantado de curiosidade diante do mundo. Além disso, La Noche de Enfrente é uma espécie de recapitulação de toda a filmografia de Ruiz, uma longa meditação sobre o tempo na existência humana (não por acaso, ele filmou O Tempo Redescoberto, último volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust).

O tempo, como sabemos, não aparece apenas como tema no cinema de Ruiz, mas como fundamento mesmo de sua linguagem. Esculpe-se em longos planos sequência, mimetismo da nossa vida biológica exposta aos limites da duração. Ruiz filmou esta sua última obra com ajuda de sua mulher e montadora Valeria Sarmiento. Ela dirige Linhas de Wellington, sobre um roteiro inédito de Ruiz, e que também está na Mostra.

Em La Noche de Enfrente, o alter ego de Ruiz em sua busca memorialística é Don Celso (Sergio Hernandez), um senhor à beira da aposentadoria. Ele tem a certeza de que será assassinado e, em sua trajetória final, encontra vários personagens, inclusive um Beethoven vestido com roupas de época e que é apresentado à magia do cinema. Enfim, o alter ego do cineasta é tanto o velho prestes a morrer quanto o menino que tem a vida pela frente. Infância e velhice convivem em cada um de nós e, como dizia Freud, o inconsciente não tem idade. Há uma chama de juventude habitando o peito de cada moribundo e, por isso, cada qual à sua maneira, somos um pouco imortais. É o testamento do artista.

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