Desafio de ‘Os Dias Eram Assim’ é manter pique do capítulo inicial  
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Desafio de ‘Os Dias Eram Assim’ é manter pique do capítulo inicial  

Luiz Fernando Zanin Oricchio

18 Abril 2017 | 00h18

 

Evandro Teixeira fotografa ensaio em Santa Teresa

Divulgação/Rede Globo

 

Uma mistura bem balanceada de romance, política e ação fizeram do primeiro capítulo de Os Dias Eram Assim um coquetel dos mais saborosos. A nova novela da Rede Globo (Super série, como agora se chamam neste horário mais tardio) parece promissora.


Em especial porque a trama se situa em época muito conturbada do País, os chamados “anos de chumbo”, fase mais violenta da ditadura brasileira (1964-1985), quando grupos de esquerda e governo se enfrentavam em luta muito desigual.

O dia escolhido para o primeiro capítulo não poderia ser mais significativo – 21 de junho de 1970, quando Brasil e Itália se enfrentavam na final da Copa do Mundo no México e disputavam, além do título em si, a posse definitiva da Taça Jules Rimet. As duas seleções já tinham dois títulos e quem ganhasse o terceiro ficaria de vez com a copa.

No Brasil, a disputa futebolística ganhava significado especial e ressonância simbólica. O governo do ditador Emilio Garrastazu Medici tentaria tirar proveito do sucesso da seleção em benefício próprio. As esquerdas denunciavam essa utilização política do futebol e pregavam que se torcesse contra o escrete. Mas quem teria coragem de torcer contra um time formado por Gerson, Pelé, Tostão, Clodoaldo, Jairzinho e outros craques, e que jogava o fino da bola?

Toda essa divisão de ideias mostrava um país dilacerado. País, que tentava se mostrar grande e civilizado mas no qual opositores eram torturados e assassinados nas prisões.  

A adrenalina dessa época muito especial terá de ser captada pela novela. Esse será seu maior desafio. A estratégia para alcançar esse resultado funcionou, ao menos nesse primeiro capítulo. O jogo final da Copa como centro das atenções. Ao mesmo tempo, toda uma série de conflitos,  atrações e repulsões se armando para fiar a teia do folhetim. Um patrão autoritário e conivente com o regime, Arnaldo (Antonio Calloni), sua filha rebelde, Alice (Sophie Charlotte) prometida a um noivo insosso e interesseiro,  Vitor (Daniel de Oliveira). Um jovem médico idealista, Renato (Renato Góes), seu irmão, o estudante Gustavo (Gabriel Leone) e um ativista da luta armada, Túlio (Caio Blat), que “cai” na primeira ação da história e é torturado pela polícia.

Como em geral acontece no primeiro capítulo de novela, neste também aparecem mais personagens que num romance russo. O espectador precisa prestar atenção para não se perder, pois a fragmentação pode levar à confusão. Com o tempo e o hábito, as histórias e núcleos passam a ficar mais claros.

Mas este não é o desafio maior. Mais difícil é garantir ao telespectador a imersão no clima de um tempo muito especial, porque cheio de radicalismos. Nesse sentido, a busca de realismo é opção certeira. A direção é sóbria e enérgica e a fotografia, a cargo do mestre Walter Carvalho, aposta na simplicidade e no realismo. Convence e emociona. Ajuda muito nesse processo a inserção de imagens documentais ao longo da trama. São imagens em preto-e-branco, em sua maioria. Fortes, com aquela textura de cinema-verdade que conferem credibilidade ao que se vê. Logo no início é apresentado uma espécie clipe-resumo de como se chegou àquela data. Imagens rápidas de Jango, o presidente deposto, comícios febris, passeatas, o golpe, generais fardados, soldados e tanques na rua espancando civis. É a ditadura se impondo. E ditadura é sinônimo de violência.  

Ao lado deste desafio, há outro talvez ainda mais difícil:  ambientar a história de amor e os lances de folhetim a um quadro histórico que não pode ser deformado até mesmo por uma questão ética. É claro que o espectador da novela liga a TV à espera de um romance caliente entre a mocinha rebelde e o médico idealista. Torce pelos mocinhos e odeia os vilões. As coincidências folhetinescas fazem parte da linguagem consagrada pela TV. O convívio dos personagens positivos com os malvados faz parte do jogo dramatúrgico – afinal, trata-se de uma obra de ficção. Mas que poderia, desse jeito mesmo, se passar em qualquer época, e até hoje em dia, com nossa pobre realidade atual de delatores e delatados.

Mas, se a escolha foi pelos anos de chumbo, quando a febre política subiu ao seu grau máximo, e quando tantos perderam a vida, há que se responsabilizar por essa opção. Ao menos para deixar claro o altíssimo preço que paga um país quando desiste da democracia, como alguns defendem ainda hoje.

Os Dias Eram Assim é um belo título e começou bem. Resta ver se mantém o pique inicial, com tantos desafios que tem a enfrentar para merecer esse título, que implica verdade e fidelidade a uma página infeliz da nossa História.