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Depois da Olimpíada

Luiz Zanin Oricchio

26 Agosto 2008 | 13h43

Quer a gente queira, quer não, acaba se envolvendo com um evento da magnitude da Olimpíada. Não sei qual é o seu caso, mas o meu é o de um monomaníaco (em futebol), que apenas eventualmente se interessa pelos outros esportes. Quer dizer, de quatro em quatro anos ou quando existe alguma competição especial e o Brasil, por acaso, tem chance de ganhar alguma coisa. Somos também atingidos pelas notáveis decepções que acontecem quando chegamos a essas disputas, em geral mal preparados, como mais uma vez parece ter sido o caso, em algumas modalidades.

Ficam, então, aquelas impressões de exceção, como a vitória das meninas do vôlei. Ou a grande proeza de Maurren Maggi, que contém todas as etapas de uma épica esportiva. O fundo do poço, a iminência de desistir de tudo, a volta por cima, etc. Se a trajetória esportiva de Maurren fosse escrita por algum roteirista de cinema, alguém, com certeza, lhe diria para ser mais verossímil e menos exagerado. É uma vida de cinema, a de Maggi – da acusação de doping, injusta ao que parece, à medalha de ouro na China. Não há como não se encantar com o caráter simbólico de todos esses passos, que se diria escritos pela mão do destino.

Também dos fiascos se podem tirar boas coisas, se soubermos olhá-los sem raiva ou ressentimento. Claro, falo aqui da seleção masculina de futebol, que se saiu tão mal, apesar de ter vencido a Bélgica na luta pela medalha de bronze. Não que o terceiro lugar não seja importante, deixemo-nos de frescuras. O que pesou, e vai pesar sobre essa seleção, é a maneira como se deixou abater pelos hermanos, sem qualquer perspectiva de reação ou esboço de que, pelo menos, venderiam caro a derrota. Os únicos lances de “valentia” que tivemos, nesse quesito, foram os pontapés, atos de selvageria destinados a substituir a raça, porque essa não se tem.

Sei bem que os problemas da seleção são táticos, técnicos e talvez pudessem ser resolvidos por outro treinador ou por outro elenco. De qualquer forma, esse elenco não me parece tão ruim assim a ponto de passar vexames. Alguma outra explicação há de haver. E talvez ela passe pela falta de planejamento, pela soberba da CBF e dos próprios atletas. Todos elos dos mesmos problemas, e todos de difícil solução. Para ficar apenas entre os jogadores, deixando que Dunga e Ricardo Teixeira se entendam. Criou-se entre os boleiros uma mentalidade de superastros difícil de ser driblada. Dou apenas um ou dois exemplos. Quando lhe perguntaram o que achava das críticas que estava recebendo, Andersson respondeu que achava graça, pois quem o criticava não ganhava, em toda a vida, o que ele, Andersson faturava num ano. O pior é que é até verdade. E, levando em conta o que se paga hoje a um jornalista, o cálculo do volante pode até ser conservador. O problema está em dizê-lo em público e assumir que fazemos parte de um mundo em que a única coisa que importa é a conta bancária do cidadão. Assim, é o rico quem tem sempre razão.

Essa é a lógica do momento, e que implica no esvaziamento completo da questão ética. Outro exemplo: Robinho está fazendo com o Real Madrid exatamente o que fez ao Santos alguns anos atrás. Não lhe importa que haja um contrato em andamento. Se existe um paradeiro mais interessante (como agora o Chelsea parece que é), por que deveríamos cumprir o que assinamos? Não que o Real seja uma pia instituição e esteja sendo vítima nesse caso. De certa forma, está provando do próprio remédio, pois também não se incomoda em assediar jogadores com contrato em vigência, como fez exatamente com o Santos, para levar Robinho. Em síntese: eles se merecem, e muito bem. São farinha do mesmo saco.

Em comparação com esse tipo de conduta do futebol profissional ficam ainda mais bonitas façanhas como a de Maurren Maggi e das meninas do futebol, que ganharam prata, mas são de ouro.

(Coluna Boleiros, 26/8/08)