Cultura

HOBBES

Decepcionados com a política?

As pessoas que se dizem decepcionadas com a política, estão de fato frustradas com os políticos, o que é diferente. A política é inevitável

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Luiz Zanin

10 Março 2016 | 13h20

Maquiavel. De que vale o poder sem a glória?

Maquiavel. De que vale o poder sem a glória?

Tenho ouvido muito essa história. As pessoas estão decepcionadas com a política.

A meu ver isso não faz o menor sentido. As pessoas podem estar decepcionadas com os políticos. Não com a política.

Porque estar decepcionado com a política seria o mesmo que estar chateado com a Lei da Gravidade, com o limite biológico traçado pela morte, com o agrupamento humano estruturado em torno da família, coisas assim. Fazem parte das contingências a que estamos sujeitos. Tanto a lei física, quanto o destino biológico, como a forma de sociabilidade sexual encontrada pela civilização (que, diga-se, não é a única possível como sabe qualquer estudante de etnologia). E assim é com a organização do poder, no qual a política encontrar seu sentido.

Ou seja, organizamo-nos em sociedades, nas quais a luta de todos contra todos é evitada pela criação de um Estado, ao qual delegamos o monopólio do uso da força. Em troca da nossa segurança, delegamos a ele parte da nossa liberdade. Isso é Hobbes, meninos.

A partir desses dados mínimos, sabemos que o objetivo da política é a conquista do Estado e manutenção do poder. O que se vai fazer desse poder é outra história. Maquiavel, numa das passagens de O Príncipe fala que a violência pode conduzir ao poder, mas não à glória, sendo esta entendida como reconhecimento dos concidadãos pelas obras realizadas. A manutenção do poder depende da “virtù”, palavra que às vezes é traduzida como de forma errada como virtude. A virtù é a capacidade de agir no tempo oportuno, nem antes e nem depois, aproveitando as oportunidades geradas pela “fortuna”, o acaso. Artes da política, das quais Dilma parece ignorante.

Da mesmo forma, soa ridícula a afirmação de que os atos marcados para dia 13 não são políticos. Ora, são políticos em sua essência, já que apoiam a destituição de um governo eleito. São tão políticos quanto foram as catilinárias de Carlos Lacerda contra Getúlio Vargas ou a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Visam produzir efeitos políticos. São, portanto, ações políticas. Não há nenhum mal nisso, nenhum pecado original, desde que nosso destino social foi selado pela inevitabilidade da política.

As manifestações do dia 13, bem como as hipotéticas contra-manifestações, são atos políticos, por definição. Umas pretendem criar o clima favorável para que a haja a troca de um grupo de poder por outro. Essas troca é a essência da política. Outras, pretendem a manutenção do mandato obtido nas urnas, porém com correções do rumo econômico. Argumentam, com razão a meu ver, que não votaram num modelo neoliberal.

Em outros tempos, a insuficiência dos políticos em encontrar alternativas a governos tidos como indesejáveis encontrava guarida nas Forças Armadas. Agora, busca apoio no aparato judicial. As pessoas na rua são o fermento necessário a decisões urdidas em outras instâncias. Basta ver quem apoia manifestações “espontâneas” que, claro, de espontâneas nada têm. São atos políticos, que tomam a frente do palco. Nos bastidores, manejando os cordéis, os verdadeiros atores. Os de sempre.

Para ver com clareza um quadro é preciso enxergá-lo em sua inteireza. Uma questão tanto de inteligência quando de ética.

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