De Gatos e de homens
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De Gatos e de homens

Cineasta mostra em documentário a interação entre os felinos e os habitantes da mágica cidade turca de Istambul

Luiz Zanin Oricchio

15 Julho 2017 | 19h21

Dizem que em Istambul há mais gatos que seres humanos, o que não é difícil de acreditar. Ao menos ao vermos a quantidade de felinos pelas ruas e a devoção que habitantes têm pelos animais. De tantos milhões de gatos, o filme, dirigido por Ceyda Torun, escolhe sete deles e, através desses personagens, realiza um passeio pela cidade turca e seus habitantes – humanos ou não.

Como sempre acontece nesse tipo de filme, existe uma tendência de antropoformizar os bichos. Ou seja, atribuir-lhes qualidades humanas. O que também não é de estranhar dada a capacidade humana de projetar em outros (seres humanos, animais ou mesmo objetos inanimados) sentimentos que são seus. Desse modo, os gatos são apresentados como sedutores, valentões, amigáveis, etc.

E mesmo dotado de certa espiritualidade. Os cães pensam que seu dono é Deus, diz um deles. Já os gatos têm ciência da existência de Deus, garante. Numa cidade de maioria muçulmana, um homem conta o caso em que encontrou um gato e de como este o tirou de um apuro. “Considero infiel quem não vê nesse caso a providência de Alá”, diz. Desse modo, passou a sentir-se responsável por gatos abandonados e, em especial, por filhotes sem mãe, que passou a alimentar.


Tudo isso pode não ser lá muito exato do ponto de vista da ciência que se ocupa do comportamento animal, a etologia. Mas faz sentido quando se busca uma impressão poética, tanto da cidade quanto de seus habitantes. Além do mais, os gatos possuem qualidades que associamos como positivas, como a independência, a elegância, a altivez, etc.

A diretora diz que escolheu de início 35 gatos dessa quase infinita população felina de Istambul. Acabou por se fixar nos sete personagens que acompanhamos no filme. A maior parte são de gatos “populares”, que perambulam por mercados e por restaurantes e bares do cais do porto. Um deles vive da caça de ratazanas. Outro, dos restos das inúmeras peixarias do local. Um desses peixeiros conta que  a especulação imobiliária está de olho no local. Que pretende desalojar todo aquele pequeno comércio para construir edifícios. O homem não se preocupa tanto com ele e seus colegas, mas com os gatos. “Como eles vão viver num mundo sem qualquer espaço?”, preocupa-se.

Daí se vê que o espírito do filme pouco tem a ver com as graças de gatinhos que a gente vê por aí na internet – tem um pouco disso também, porque os pequenos felinos são mesmo fofos, mas mira um pouco mais adiante. Mas destoa do vazio em que costumam afundar os filmes sobre animais. Quando os humanos confrontam a figura imaginária do gato como o vagabundo ideal estão pensando naquilo que desejariam ser, mas não podem. Por isso os tratam bem. Pelo menos em Istambul que, por falar nisso, é uma cidade mágica.

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