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Críticos…

Luiz Zanin Oricchio

26 Outubro 2007 | 15h49

1) O debate da Mostra, como se sabe, teve como ponto de partida a tese de Leon Cakoff de que existe uma crise na crítica (de credibilidade e influência) e na cinefilia.

2) Inácio Araújo, ao contrário, entende que a crítica vive seu esplendor, com a entrada em cena dos sites e blogs e conseqüente multiplicação dos críticos.

3) Não tenho a mesma opinião festiva porque não costumo confundir quantidade com qualidade. Por isso, no debate, coloquei algumas questões: como escrevemos e para quem escrevemos? Quer dizer: que vozes se fazem ouvir em meio ao tumulto? Essas vozes existem? São ainda influentes? Essas perguntas não se endereçam apenas a críticos de cinema, mas aos próprios cineastas e a todo mundo que escreve, fala e opina, sobre qualquer assunto, no papel ou na internet. Aliás, hoje em dia, a maior parte dos jornalistas escreve nos dois meios, portanto não vejo motivo para estabelecer hierarquias a partir do suporte.

4) Dito isso, devo acrescentar que a tal “crise da crítica” não me tira um segundo de sono. Se toda a cultura está em crise e não sabe bem como enfrentar o mundo contemporâneo, por que a crítica de cinema seria exceção? Há uma hiperinflação de imagens e de opiniões. Houve algum ganho de sentido com ela? É a pergunta prévia sobre a crise da cultura, que deveria informar o debate sobre a crise da crítica.

5) O que, sim, me deixa preocupado é a mediocrização do gosto do público, cada vez menos disposto a enfrentar o risco da novidade. Isso cria um problemão comercial para filmes menos rotineiros, que tentam inovar na linguagem ou mesmo na temática. Essa seria uma questão a ser levada em conta pela crítica, uma vez que ela talvez tenha perdido poder para proteger esse tipo de filme. Mas a tal “democratização” da crítica (hoje todo cinéfilo pode ser um crítico) também não pode tê-la levado para o caminho do meio, do culto ao rotineiro? É só uma pergunta, mas deve ser feita.

6) Mas se a crescente dificuldade do cinema de exceção me deixa preocupado, nem por isso me surpreende. A macdonaldização do cinema expressa esse nosso período de expansão do capital e da publicitarização acelerada do real e do entretenimento, se me permitem essas expressões um tanto pomposas. Não por acaso, mais de 30% do orçamento de um filme de Hollywood é gasto em marketing e publicidade. A vida virou um longo comercial. E não há crítico de cinema que dê jeito nisso.

7) O que podemos fazer? Cada um vai descobrir suas respostas. As minhas são muito simples: aperfeiçoar o trabalho através do estudo contínuo e do contato com os filmes fora do mainstream; escrever para o leitor e não para o compadrio;tentar proteger os filmes nos quais se acredita, ainda que possa parecer um trabalho de Sísifo. Se isso tem algum efeito, não sei. Mas é o que dá para fazer, na minha opinião.