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Copa no Brasil: o que é inegociável

Luiz Zanin Oricchio

30 Outubro 2007 | 13h17

Hoje o Brasil deve ser indicado como país-sede da Copa de 2014. E quem não fica feliz com isso? Afinal, a maioria da população nem era nascida quando a Copa foi realizada aqui, pela primeira e última vez, em 1950. Ah, a Copa daquele fracasso emblemático, a mãe de todas as derrotas, imortalizada por textos de Mario Filho, Nelson Rodrigues, José Lins do Rego e tantos outros. A nossa anti-epopéia, a origem profunda do complexo de vira-latas, a nossa Hiroshima, a tragédia “pior que Canudos”. A volta da Copa, 64 anos depois, seria uma possibilidade de reescrever essa história mítica, como em ficção tentou fazer Paulo Perdigão, num conto filmado por Jorge Furtado, e que resgata um dos ‘vilões’ daquela final – o goleiro Barbosa.

Mas, claro, dirão, tudo isso é passado remoto, a derrota e o complexo já foram resgatados há muito tempo e o Brasil hoje é pentacampeão do mundo, uma potência futebolística. Verdade. Mas falta esse gostinho, que deve ser todo especial, de ser campeão em sua própria casa. Podemos até imaginar como seria esse mês todo especial de 2014. Se já não fazemos grande coisa durante uma Copa do Mundo, em qualquer lugar que ela se realize, o que dizer de uma Copa que acontece aqui mesmo, em nosso quintal? Mais do que nunca o País irá parar. Será um gigantesco parêntese na vida nacional. Nada, nenhum assunto, fora o futebol, será levado em conta. Se essa é a perspectiva, um interesse profundo e uma comoção nacional em caso de vitória, quem pode ser contra uma Copa no Brasil?

Eu não. Mesmo porque existem os argumentos econômicos. Todos os países que organizam Copas têm de fazer investimentos vultosos, mas lucram com eles. A infra-estrutura construída permanece como melhoramento permanente. É assim em toda parte, por que aqui não seria?

Meu entusiasmo diminui quando leio uma matéria excelente como a de Jamil Chade e Leonencio Nossa, publicada ontem neste mesmo caderno. Sob o título ‘Fifa pede a governadores que evitem problemas com a CBF’, o texto mostra que a entidade pede empenho para impedir ‘hostilidades políticas’ e ‘exposições negativas’ na Câmara e no Senado. Traduzindo: se o Brasil quer mesmo sediar a Copa do Mundo, precisa se comprometer a não fazer marola. Como por exemplo uma CPI para apurar lavagem de dinheiro em clubes ou mesmo na entidade que, supostamente, dirige o futebol no Brasil. Ou seja, para se garantir a Copa no Brasil está se armando um gigantesco ‘acordo de cavalheiros’.

Não que eu tenha em grande conta essas CPIs ou ache que estas tragam muita coisa à luz, a não ser a vaidade e os interesses políticos dos seus protagonistas. Mas essa não deve ser uma moeda de troca com a Fifa. A soberania política do País é inegociável e não pode ser mercadejada em cima do balcão.

Fala-se também em perigo de corrupção, porque as obras deverão ser financiadas parte pela iniciativa privada, parte pelo dinheiro público. Ok, somos todos contra a corrupção, e ela existe desde a época em que o imperador Vespasiano taxou os mictórios de Roma e, ao que parece, desviou o dinheiro. Então, se formos ter medo da corrupção, o melhor é não fazer nada. Corrupção se fiscaliza, e se pune, quando comprovada.

Para resumir, o preço que não se pode pagar por uma Copa do Mundo é abdicarmos do espírito crítico. Esse, ou é inegociável ou não existe.

(Esportes, Coluna Boleiros, 30/10/07)