Consagração de ‘Que Horas ela Volta’ fecha um ciclo para Anna Muylaert
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Consagração de ‘Que Horas ela Volta’ fecha um ciclo para Anna Muylaert

Luiz Zanin Oricchio

06 Outubro 2016 | 09h28

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RIO – Em movimentada cerimônia no Teatro Municipal do Rio, Que Horas Ela Volta, de Anna Muylaert, saiu como vencedor do 15º Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. O longa-metragem, que mostra as ambíguas relações entre patrões em empregadas domésticas, ganhou o troféu Grande Otelo de melhor filme, além dos de direção (Anna Muylaert), atriz (Regina Casé), atriz coadjuvante (Camila Márdila), Juri Popular, roteiro original (Anna Muylaert), montagem (Karen Harley).

O surpreendente Chatô – o Rei do Brasil ficou em segundo lugar, com nada menos de cinco prêmios, incluindo o de melhor ator para Marco Ricca, além de roteiro adaptado, figurino, maquiagem e direção de arte. Nada mal para um filme que se arrastou por 18 anos e do qual muita gente até duvidava da existência. Já Casa Grande, de Fellipe Gamarano Barbosa, que recebera nada menos de 11 indicações, saiu sem nada.

O melhor documentário foi o emocionante Chico, Artista Brasileiro, de Miguel Faria Jr. E o prêmio para longa de animação premiado foi destinado a Até que a Sbornia nos Separe, do gaúcho Otto Guerra.

Domingos Oliveira ganhou o prêmio de melhor comédia com seu memorialístico Infância, o que não deixa de ser uma ironia. Essa categoria foi criada para premiar as comédias brasileiras, que fazem sucesso de bilheteria e passam longe de prêmios e festivais. Ao invés, premiou-se uma obra que, se tem momentos de humor, não pode ser definida como comédia convencional. Domingos anda em grande fase. Há pouco venceu o Festival de Gramado com seu Barata Ribeiro 716, outro exercício de memória. No palco do Municipal, brincou: “Façam 80 anos para ver como os prêmios começam a chegar”.

A cerimônia teve nova direção. Sob a batuta criativa de Rafael Dragaud, procurou modernizar-se e ganhou o título de “Manifestações”, consoante com o escaldante ambiente político do país. Bateu forte na tecla da inclusão. Os apresentadores eram negros, Fabrício Boliveira e Cris Viana, houve números musicais com pessoas transgêneros, e, na homenagem a Cassia Eller, dançarinas exibiram os seios. Os espectadores (o espetáculo foi transmitido pelo Canal Brasil) foram convidados a se manifestar através do Twitter e algumas mensagens eram projetadas diretamente na tela do teatro. A homenagem ao diretor, produtor e ator Daniel Filho foi pontuada por piadas picantes, a partir da fala do seu enteado, Gregório Duvivier do Porta dos Fundos.

A plateia e os artistas premiados também não fugiram ao tom proposto. Como outras manifestações recentes ligadas à classe cinematográfica, esta também foi marcada pela palavra de ordem “Fora Temer”, com algumas variantes, algumas mais pesadas, como a do diretor Otto Guerra, que proferiu um “Vaza, canalha” em pleno palco, sendo muito aplaudido. Para quem assistiu a outras cerimônias bem comportadas do Prêmio Brasil de Cinema, esta foi uma exceção e um avanço. Ousou. Tédio não houve.

Em seu discurso de agradecimento, Anna Muylaert insistiu no mote político, lamentando o resultado da eleição municipal em São Paulo, que elegeu João Doria (PSDB) em primeiro turno. Cumprimentou os cariocas por terem levado Marcelo Freixo (PSOL) ao segundo turno e disse que iria torcer por ele. Disse também que, desde que lançara Que Horas Ela Volta?, sua vida virara uma interminável maratona que rendera 22 prêmios. “Com este troféu, fecho um ciclo e entro em férias de um mês”, disse.

Mas talvez haja ocupação para ela, mesmo neste período de descanso. Também  emocionada, a atriz Regina Casé disse que já aceitou fazer novo filme com Anna. Deve vir coisa boa por aí.