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Confissões de um pecador

Luiz Zanin Oricchio

02 Outubro 2007 | 09h21

Talvez eu não devesse voltar ao assunto. Afinal, todos os grandes cronistas esportivos já escreveram sobre a seleção das meninas, o que teria eu a acrescentar? Mas, afinal, devo ser fiel a mim mesmo, e confessar que fazia tempo que a minha, digamos assim, emoção futebolística não era mobilizada a esse ponto. Acompanhei, de leve, os primeiros jogos da Copa do Mundo na China e esse time foi me conquistando aos poucos. Caí de quatro, exatamente como as adversárias, naquele jogo contra os Estados Unidos. E tive o prazer, nos dias que separavam aquela partida do jogo final, de ver as meninas desbancar os marmanjos no noticiário, coisa inédita até agora. Feitas as contas, na semana passada, pela primeira vez, o futebol feminino foi levado a sério neste país.

E isso não aconteceu, vejam, por qualquer imposição de ordem racional, o que também seria legítimo. Algum raciocínio do tipo: a modalidade já é praticada para valer em vários países, por que não o seria no Brasil, afinal aqui não é (ou era?) o país do futebol? Mas não se deu nada disso. O que aconteceu foi, de fato, um caso de amor, de paixão repentina, que tomou conta do país. Nas ruas, nos botecos e, pelo que consta, até nos salões de beleza só se falava de Marta, Cristiane, Formiga & Cia.

Por quê? Não sei ao certo. Não sou bom de certezas, como colegas mais afortunados. Mas tenho o direito de testar hipóteses, como recomenda um mandarim do jornalismo caboclo, até para casos bem mais graves que uma disputa de copa do mundo feminina. Para meu consumo doméstico, encontro esta conjectura, simples e cristalina, simplista mesmo, se quiserem: ao ver as meninas jogando, nos lembramos de como o futebol brasileiro já foi grande e inventivo. Bonito e eficiente ao mesmo tempo. Futebol-arte.

Sei que pareço estar incorrendo no pior dos pecados, o da nostalgia. E, como pecado pouco é bobagem, cometo logo outro – o do romantismo. São duas palavras que, ligadas, bastam para relegar um sujeito ao limbo hoje em dia – nostalgia e romantismo. O nostálgico vive no passado e o mundo é um eterno presente. Já o romântico não tem sentido prático e o mundo é o das coisas factíveis, que se podem pegar, cheirar, morder: pão, queijo. Pois bem, também a mim – e mais a uma bela multidão – agradou o fato de que essas meninas não fossem super-estrelas, badaladas e mimadas, encharcadas de dinheiro e tédio, mal suportando os próprios egos. Não. Parecem moças comuns, que encontramos todos os dias no Viaduto do Chá, só que jogando bola com imensa categoria.

Vão me dizer que tudo é questão de tempo. Logo elas farão parte integral da sociedade do espetáculo e será para o bem delas próprias e de todos nós. Nós mesmos que estamos agora pedindo que elas sejam atendidas em suas reivindicações, que tenham condições de praticar esse esporte por aqui, ganhar mais, etc. Enfim, que sejam tratadas profissionalmente. Esse ingresso justíssimo num regime profissional e rentável talvez signifique o princípio do fim disso tudo que mais nos encantou: um certo amadorismo, o ar de que estão jogando por puro prazer e que o jogo é aquilo mesmo, uma brincadeira levada muito a sério.

Tudo isso pode desaparecer, sem dúvida, e talvez seja o que os conformistas chamam de ‘ordem natural das coisas’. Mas é como a primavera, uma bela estação enquanto dura. Nós, românticos e nostálgicos, não esqueceremos.

(Estadão, Caderno de Esportes, Coluna Boleiros, 2/10/07)