Começa a Mostra, e com Bellocchio
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Começa a Mostra, e com Bellocchio

Luiz Zanin Oricchio

19 Outubro 2016 | 19h42

belos

Daqui a pouco, no Auditório Ibirapuera, começa a 40ª Mostra de Cinema de São Paulo. Não poderia ter início melhor. O filme de estreia é Belos Sonhos, um Marco Bellocchio cheirando a tinta de novo. Vi-o em cabine ontem e confesso que saí em estado de graça. É um trabalho de mestre, emocionante sem jamais resvalar na pieguice. E isso apesar do tema, digamos, perigoso.

Um homem não consegue se refazer da perda da mãe, morta de maneira súbita quando ele era um menino de nove anos e ela tinha apenas 38. Há um mistério envolvendo essa perda, e que percorre o filme inteiro. O luto pesa como chumbo sobre Massimo (Valerio Mastandrea, quando adulto), que se torna um jornalista bem-sucedido mas continua a ser acometido de crises de pânico.

Intenso, operístico em certos momentos, duro, sardônico, terno, Belos Sonhos joga com várias gamas de sentimentos. A estrutura complexa, com os tempos da narrativa se alternando, passado, presente, passado de novo, etc, é tão bem construída que não se sente um único tranco. Desliza-se pelo tempo. Enfim, ainda vamos falar muito sobre esse filme. Se não conseguir vê-lo na abertura, não se preocupe. Ele passa algumas vezes durante a Mostra. E já está comprado. Vai chegar ao circuito comercial.

Abaixo, um pequeno artigo que escrevi sobre a Mostra. Vamos cobri-la em vários suportes, como é de hábito hoje. Papel, Portal, blogs, Facebook e Twitter. Tudo mais ou menos interligado, como é praxe. Desfrutem.

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Entre mestres e novatos

 

Na entrevista que deu para o Estado, Renata de Almeida, a diretora da Mostra de Cinema de São Paulo, espantou-se com o número de inscrições deste ano: “Mais de 1400 filmes!” É verdade: desde a explosão das novas tecnologias, vivemos afogados num oceano audiovisual. Ficou muito barato filmar, montar e finalizar um filme, documental ou de ficção. Depois, basta criar um link e enviá-lo por e-mail a mostras e festivais. Pobres curadores…Matam-se de ver filmes dia e noite, são obrigados a descartar a maioria por questões de espaço e depois se atormentam pelo resto da vida com a possibilidade de haver gongado a obra-prima de algum desconhecido…por tédio, ignorância ou mero cansaço.

Antes era bem diferente. De certa forma, o cinema era elitista. Tudo era caro, das câmeras à película, dos equipamentos aos salários dos técnicos especialistas. Chegar a uma cópia final era um épico de natureza industrial. E depois precisava-se expedir a película, em latas físicas, pagar, passar pela alfândega, pelo correio, para enfim chegar às mãos de um diretor de festival. Mesmo os “independentes” penavam para concluir suas obras. Hoje filma-se com um celular, edita-se com um programa de final cut no computador, manda-se por email  e acabou-se. É quase tão simples e barato quanto pegar uma caneta, uma folha de papel e escrever – se é que ainda existe quem faça isso. De qualquer forma, o século 21 tem tantos cineastas emergentes quando o século 19 tinha de poetas inéditos.

Como chegar à qualidade em meio a tamanha quantidade? Bem, este tem sido o desafio dos festivais, que precisaram redesenhar curadorias e comissões de seleção. Estas, a duras penas filtram os candidatos; e, da forma que for, buscam separar o joio do trigo, por subjetiva que seja essa fronteira. Por outro lado, há os “autores” que são buscados pelos festivais. Filmes de diretores famosos, consagrados, ou novatos promissores que já mostraram serviço em trabalhos anteriores. Estes têm passe valorizado e são caçados a laço pelos curadores.

Do coquetel bem balanceado entre desconhecidos e badalados é que pode sair um festival interessante.

O fato é que a Mostra de São Paulo, desde suas origens, buscou equilíbrio entre o já consagrado e a absoluta novidade de qualidade, aquele tipo de filme que passaria despercebido, ou nem chegaria ao Brasil caso a Mostra não colocasse seus generosos holofotes sobre ele. Descobrir um autor que não se conhecia é um alto prazer cinefílico, assim como cultuar um mestre cuja carreira se segue há décadas.

No início dos anos 1990 fomos apresentados aos cineastas iranianos, os quais nem de ouvido conhecíamos. Mais tarde, já consagrados, eles andaram por aqui, como celebridades cinéfilas, como Moshen Makmalbaf e Abbas Kiarostami, o maior de todos, que se transformou num “amigo da Mostra”. Tarantino era um desconhecido quando trouxe para cá um filme estranho chamado Cães de Aluguel. Os exemplos pululam.

Mas em meio às novidades, sempre circularam mestres já reconhecidos, que iluminavam as mostras com seus filmes faróis. Foi o caso de Manoel de Oliveira, nas várias vezes em que aqui esteve. Ou o mestre da fotografia Gabriel Figueroa, escultor da luz de filmes de Índio Fernandez, Luis Buñuel e John Ford. Yoshida circulou muito por aqui, sempre em companhia de sua atriz e musa Mariko Okada. O armênio Artavazd Peleshian encantou a todos com seu mau-humor cômico e seu cinema alucinante. Almodóvar desembarcou numa mostra, zangado pela viagem e em companhia de suas “chicas”, inclusive a esfuziante Rossy de Palma. A lista é imensa.

Neste ano tão agitado, o convidado não poderia ser mais adequado – Marco Bellocchio, emblema do cinema político italiano, mestre consagrado de filmes provocativos como De Punhos Fechados, O Diabo no Corpo e Bom Dia, Noite. Também pintor e desenhista, ele assina o cartaz da mostra e inspira a linda vinheta a ser apresentada antes de cada uma das sessões. Nela mesclam-se os punhos no ar dos indignados, as mãos unidas pela fé, os desacertos do mundo, a revolta, a esperança. Tudo isso que andamos sentindo nós, brasileiros, diante de uma realidade que não cessa de nos causar pasmo. Poderia o cinema mais uma vez iluminar a cena, abrir nossos olhos e nos arrancar de nossa perplexidade? Ou será pedir muito dessa arte?