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Cochochi: o Irã que existe no campo mexicano

Luiz Zanin Oricchio

25 Outubro 2007 | 12h06

Um espectador definiu Cochochi como ‘um filme iraniano rodado no México’. Bingo. Não deixa de ser isso mesmo. Mire e veja a história e sinta se não tem um ‘toque’ iraniano: um garoto leva, a pedido do avô, medicamentos a um vilarejo distante de onde moram. Sem permissão, o menino toma o cavalo do avô emprestado e pega a estrada, em companhia de um amigo. O que acontece? O cavalo some, num momento de descuido. Alguém o roubou? O que houve? A ‘história’ do filme resume-se à busca pelo animal perdido.

Lembrou filme iraniano? Claro, mas também uma das matrizes de toda essa coisa – o clássico neo-realista Ladrão de Bicicletas, de Vittorio De Sica. Aqui, como lá, existe essa idéia de que o fato mais importante do mundo é aquele que atinge o personagem. Uma guerra pode ter começado do outro lado do mundo; um tufão varreu uma ilha distante; os líderes mundiais se reuniram e decretaram alguma coisa importante. Pouco importa: para o menino, o centro do mundo, ou pelo menos do seu mundo, é aquele cavalo que sumiu e não aparece de jeito nenhum. O que ele vai dizer ao avô?

Esse é um ponto. O outro é a maneira como os diretores Israel Cárdenas e Laura Amelia Guzmán constroem o filme. Primeiro, respeitando os idiomas indígenas, que são falados pelos habitantes e pelos garotos, juntamente com o espanhol, língua oficial do país. Segundo, pela maneira como enquadra as cenas da natureza mexicana e como coloca nelas os seus personagens. Nunca como elementos estranhos, mas como seres em seu habitat, perfeitamente integrados em seu ambiente. E como vemos isso? Pela imagem, pela posição onde põe a câmera e enquadra os atores. Há outro ponto da autenticidade,buscada por esse tipo de cinema ao escolher atores não-profissionais para desempenhar seus próprios papéis. É também o que também acontece aqui.

Com tudo isso, um filme como Cochochi muitas vezes se aparenta a um documentário e isso não é gratuito. A tentativa de captar essa vida simples, ‘como ela é’, ao ponto de utilizar as locações naturais e os habitantes locais como personagens de si mesmos, expressa esse desejo de registro. Como se o documentário fosse veículo da ‘verdade’, do real, e a ficção tratasse de coisas imaginárias.

É apenas uma impressão, que se duplica em outra: de um lado o natural, a vida do campo que se opõe ao artificialismo da existência na cidade. Mas essa dicotomia suposta não exprime por completo o que se passa em Cochochi. São vidas que parecem fluir com naturalidade e continuidade (ao contrário da dos urbanos, que se dão por quebras e arritmias). Mas ao mesmo tempo, são vidas difíceis, e as carências não se escondem. A virtude da naturalidade não disfarça a pobreza; ambas se entretecem nesse filme delicado.

(SERVIÇO)Unibanco Arteplex 1: Hoje, às 18h50. HSBC Belas Artes 2: Dom., às 16h30. Cotação: Bom