Clint e a dimensão do outro
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Clint e a dimensão do outro

Luiz Zanin Oricchio

20 Março 2009 | 09h44

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Interessante o caminho pessoal e artístico de Clint Eastwood (ambos se confundem, claro) – dos durões Dirty Harry e dos western spaghetti dos anos 60 a uma filmografia que tende a suavizar seus personagens no contato com o outro. O que é o outro? Por definição, aquele que é diferente de nós. Ele pode representar uma ameaça; pode também ser fonte de desequilíbrio e portanto de crescimento pessoal.

Essa incorporação do outro na dimensão da experiência está no centro da filmografia recente de Clint, em especial Cartas de Iwo Jima e agora neste Gran Torino. Em um, ele tem a ousadia de filmar um episódio crucial da 2ª Guerra pelo ponto de vista do inimigo japonês. Em outro, chega a vez de tratar da reação de um intolerante fundamentalista (ele próprio) diante de levas de imigrantes que chegam aos Estados Unidos.

O próprio Clint, naquela que ele diz ser sua última participação como ator, vive Walt Kowalski, perfeito exemplar do homo americanus. Metalúrgico aposentado, conserva na garagem um Gran Torino 1972, um daqueles carrões que foram a glória da indústria automobilística dos EUA pré-crise do petróleo. Hasteia a bandeira do país na varanda e hostiliza a vizinhança oriental que veio se instalar por ali. Walt acabou de ficar viúvo e não se dá com os filhos – em especial com um deles, que vende carros japoneses. Há aí toda uma simbologia meio óbvia, mas funcional. Walt é branco, intolerante e nacionalista. Também é católico, não praticante, e não dá trégua ao jovem padre que prometeu à mulher de Walt levá-lo ao confessionário depois que ela morresse.

Se dissermos que Gran Torino é um filme de conversão (não necessariamente religiosa), não estaremos fazendo jus a ele. O que ele indica é um alargamento de consciência do personagem. A princípio, Walt apenas vê o outro, mas não o enxerga. Depois que é forçado a fazê-lo, passa a distinguir nuances, inclusive as mais evidentes, que dizem respeito a diferenças de caráter e comportamento entre pessoas do mesmo grupo étnico e cultural. Cada pessoa é uma pessoa, independentemente de qualquer outra consideração. Essa poderia ser a conclusão de Kowalski, a sua renúncia a um certo nacionalismo estreito e seu progresso em direção a um sentimento mais universal. Que não fosse por outro motivo porque também os Estados Unidos são um país de imigrantes, onde mora gente como o próprio Kowalski, de raízes talvez polonesas, e seu amigo, um barbeiro ítalo-americano com quem ele troca gentilezas típicas de dois machões.

A outra questão pendente é a do lugar da violência na vida social. Kowalski sabe que não pode ser omisso se quiser proteger seu bairro e as pessoas que agora nele moram. Mas também aprendeu que um saneador social do tipo de Dirty Harry talvez já esteja superado. A maneira sacrificial como resolve esse problema pode ser o que há de mais emocionante em Gran Torino. É como se toda uma cultura da Lei de Talião estivesse sendo enterrada e abrisse caminho para outra civilidade. É um filme de esperança e reconciliação, apesar de roído pela morte em várias de suas pontas.

(Caderno 2, 20/3/09)