Cine Ceará 2016. Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois
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Cine Ceará 2016. Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois

Luiz Zanin Oricchio

21 Junho 2016 | 16h28

clarisse

Fortaleza – “É meu lado Carrie, a Estranha”, me disse a atriz Sabrina Greve ao passar pelo festival. Ontem vi Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, de Petrus Cariry. Sabrina faz a personagem-título, mas confesso de me lembrou mais de Possessão, de Andrezj Zulawski. E, de fato, na conversa que houve no dia seguinte, Petrus disse que havia feito todo o elenco e não apenas Sabrina ver Possessão. Sabrina Greve, então, seria a nossa Isabelle Adjani, a inesquecível “possessa” de Zulawski.

No entanto, a história começa com a possessa… sendo possuída pelo próprio marido. Frígida, parece tolerar com dificuldade o ato sexual sem prazer, uma espécie de estupro sancionado pela lei. A cena é violenta, incômoda, mas parece até tênue perto daquela que fecha o filme. Mas deixemos esta para lá, e o espectador que a descubra por si mesmo quando o longa estrear.

A história foi rodada na região serrana de Maranguape, no Ceará, onde o patriarca (Everaldo Pontes) fez fortuna com uma pedreira. Quem comanda agora os negócios é seu genro, o marido de Clarisse, um estrangeiro distante. Ela e o pai têm assuntos a tratar enquanto o marido toca a firma em Fortaleza. Algo muito pesado paira sobre a casa de madeira na montanha. O pai é um colecionador de animais mortos, atendido por uma empregada, porque já bem doente. Clarisse evoca cenas de infância, talvez a morte de um irmão, talvez a lembrança da mãe. Tudo é dito em entrelinhas, sem se explicitar. De certa forma, o espectador fica na penumbra. Mesmo porque se trata de um filme de atmosferas, que dialoga com o terror psicológico e um decadentismo bastante interessantes.


Do ponto de vista formal, nota-se o rigor fotográfico muito grande, com ênfase na simetria dos quadros. A fotografia é feita por Cariry, que assim acumula funções. O diálogo com a pintura renascentista torna o filme muito bonito, o que não atenua a sua claustrofobia. O trabalho de som é notável, produzindo arrepios. Trata-se de um dispositivo destinado a causar desassossego psicológico e, nesse sentido, é muito bem sucedido.

Filme de cinéfilo, dialoga com várias obras e cineastas. Tarkovski é rei para Petrus, mas além de Zulawski há também referência clara a O Iluminado, de Stanley Kubrick. Não apenas por uma assustadora cena de corredor, como pelo uso da música romântica Midnight, Stars and You, que Kubrick usa de forma ironicamente descontextualizada no terrível desfecho do seu clássico do terror psicológico.  

Clarisse é o fecho de uma trilogia iniciada com O Grão e prosseguida com Mãe e Filha. Não deve sair sem prêmio do Cine Ceará.

Cubano. O outro longa da noite foi Casa Blanca, de Aleksandra Maciuszkek, polonesa que viveu no México. No entanto, é ambientado em Cuba, num bairro portuário de Havana, que lhe dá título. Nelsa e seu filho Vladimir vivem num quarto pobre num edifício multifamiliar. A mãe é muito idosa e o filho é downiano. A situação, mostrada por uma câmera muito objetiva e foto descolorida, produz incômodo. Alguns gostaram muito, outros custaram a aguentar. Foi meu caso. Me pareceu um exercício um tanto estéril e gratuito de miserabilismo, um olhar europeu e apiedado sobre a miséria alheia.