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Choque do real

Luiz Zanin Oricchio

21 Outubro 2007 | 11h29

Entrevista com a ensaísta Beatriz Jaguaribe

Quando lançou seu livro O Choque do Real – Estética, Mídia e Cultura, Beatriz Jaguaribe não poderia adivinhar que um filme – Tropa de Elite – viria ilustrar como nenhum outro as teses expressas no texto. Nele, Elizabeth, que é doutora em literatura comparada por Stanford e professora na Escola de Comunicações da Universidade Federal do Rio de Janeiro, procura mostrar como o realismo estético ressurge com força inesperada.

Fenômeno global e não apenas brasileiro, o “pancadão do real” se impõe no cinema, na literatura, na fotografia e em outras artes. Fornece ao distinto público uma certa “pedagogia da realidade” e tem trânsito em diversos estratos da população, incluindo a sua parte menos letrada, colocada à margem da educação formal. Como escreve na introdução do livro “Num país como o Brasil, marcado pela escassa escolaridade e pelo predomínio avassalador da cultura audiovisual, os novos códigos realistas também funcionam como diagnósticos da nossa vivência social”.

E, de fato, esse corpo-a-corpo com o real, mediado pela arte, tem produzido resultados expressivos. Tropa de Elite é o destaque da hora, mas deve-se lembrar do sucesso de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e Carandiru, de Hector Babenco, para ficar em casos mais recentes. No âmbito do romance, temos o extraordinário exemplo do livro de Paulo Lins, base do filme de Meirelles, que está completando 10 anos de lançamento, e toda a literatura de Ferrez, produzida a partir da sua experiência no Capão Redondo.

Em tempos difíceis como o nosso, o realismo estético proporciona certa catarse simbólica, um alívio das tensões que se experimenta a partir de sua projeção em uma tela. Não basta chamar pelo capitão Nascimento para resolver os problemas do País. Mas, a partir da discussão desfechada por estas obras, alguma coisa pode acontecer. Abaixo, a entrevista com a autora.

No momento em que seu livro está sendo lançado, as atenções estão sendo monopolizadas por um filme, Tropa de Elite. Como você o analisa no contexto do “choque de realidade”‘ proposto por sua obra?

No meu livro, defino o “choque do real” como sendo a utilização de estéticas realistas que visam a suscitar um efeito de espanto catártico no espectador ou leitor. Este uso do “choque da realidade” quer provocar o incômodo sem recair, necessariamente, em registros do grotesco ou do sensacionalismo. O impacto do “choque” decorre da representação de algo que não é incomum, mas é revoltante, excitante, violento e estarrecedor. O que é representado descarrega adrenalina justamente porque essas atrocidades e esses horrores fazem parte do cotidiano das metrópoles atuais, chamam a atenção para este cotidiano do desmanche social, tal como é o caso dramático das guerras do narcotráfico nas favelas brasileiras. Agora, o poder mobilizador do “choque do real” depende do uso persuasivo da estética realista. Se um filme como Tropa de Elite, por exemplo, tivesse retratado os conflitos entre o Bope, favelados, traficantes e estudantes de classe média com uma linguagem surreal ou com uma estética do realismo mágico, ele não teria o mesmo impacto porque os espectadores já naturalizaram o realismo estético como uma representação da “vida como ela é”. Nesse sentido, esses códigos do realismo têm a capacidade de fornecer vocabulários de reconhecimento que não abalam a noção da realidade em si, mas reforçam seu desnudamento. As estéticas do realismo inventam ficções que parecem ser a realidade. Nosso cotidiano é dispersivo, fragmentado e amorfo. A ficção realista torna a realidade mais “real” porque intensifica, seleciona e enquadra eventos, personagens, enredos.

O fato de este filme estar fazendo tanto sucesso (com as cópias piratas e com a versão oficial) justifica essas teses da pedagogia da realidade e da epifania negativa, colocadas no livro?

Evidentemente escrevi este livro antes do aparecimento do filme Tropa de Elite. Mas creio que ele ilustra muito bem os meus argumentos. O argumento central é calcado na idéia de que nosso senso comum da realidade é permeado pelas estéticas do realismo, embora este filão realista conviva com outros imaginários fantasiosos, maravilhosos, etc. Mas os códigos do realismo estético detêm um poder de construção de realidade. No caso deste filme e de outros, estas estéticas oferecem uma pedagogia da realidade porque fornecem explicações e interpretações de fácil assimilação. Estas explicações, entretanto, desferem o impacto de uma epifania negativa porque elas não oferecem saídas redentoras, não vislumbram utopias do futuro, não possuem sublimação. Mas retêm um forte poder de mobilização porque colocam em pauta nossa perplexidade diante da violência e dos conflitos sociais. Isso se torna particularmente relevante num país como o Brasil, marcado pela escassa escolaridade e pelo predomínio avassalador da cultura audiovisual.

Até que ponto você entende que os “choques de realidade” vêm se convertendo em linha dominante de um tipo de cinema? Afinal, Tropa de Elite promete ser um dos grandes sucessos do cinema recente, além de Cidade de Deus, Carandiru e outros filmes como O Rap do Pequeno Príncipe, Deserto Feliz, Amarelo Manga e Baixio das Bestas. Que tipo de contribuição você acha que esses filmes trazem para a construção do imaginário do País?

Creio que a força destes novos códigos do realismo estético não se limita à produção brasileira, basta ver o novo cinema iraniano, o cinema inglês de Loach, Frears e outros, os mandamentos do Dogma, novos filmes argentinos tais como O Outro Lado da Lei, o prestígio crescente do documentário no mundo inteiro, etc… Este retorno do realismo, em produções muito diferenciadas entre si, se dá em meio à saturação provocada pela própria cultura midiática com seu incessante bombardeio de narrativas e imagens. É como se houvesse uma necessidade e uma ansiedade de buscar um solo comum de experiências justamente porque a realidade está em disputa. Creio que o uso do choque nos recentes filmes brasileiros se alimenta da necessidade de produzir sentido em meio ao risco, incerteza, violência e brutal desigualdade da sociedade brasileira. Os retratos da favela, prisões, periferias desoladas, etc… aguçam o debate sobre a viabilidade social também porque o Brasil se democratizou extraordinariamente. Ao par desta democratização, ocorre uma democratização do próprio conceito de cultura que já não é abalizada pelos cânones letrados. Por outro lado, cineastas que buscam produzir o choque de realidade devem encontrar uma maneira diferente de produzir estes “retratos da realidade” em meio ao empacotamento midiático. Certamente estes filmes contribuem para um debate aguçado sobre os descaminhos da sociedade brasileira e creio que isto é altamente positivo. Entretanto, há o perigo redutor do “choque de realidade”. Enquanto os “excluídos” têm uma hipervisibilidade midiática, existem poucas produções que colocam em pauta as vivências e agruras da classe média ou a retratação da própria favela em registros além do pancadão realista. Gostaria de ver mais enredos que apresentassem as nuances e as imaginações insólitas de cidades e pessoas que ainda estão por serem narradas. Quanto mais diversificada for a produção cinematográfica melhor, afinal também há novas produções de impacto e qualidade que não se enquadram neste viés do choque de realidade.

Em alguns momentos você faz a distinção entre esses filmes e os do Cinema Novo, que também utilizavam muitas vezes a violência, imagens da miséria, mas de uma forma, digamos, mais “politizada”, distanciada, reflexiva, com proposta de uma utopia no horizonte, por exemplo. Esse tipo de proposta seria impossível no contexto contemporâneo (fim das utopias, individualismo, predomínio do espetáculo sobre a reflexão, etc.)?

No meu entender, há certa continuidade entre estes filmes e os do Cinema Novo em relação à denúncia social. Mas os retratos do Brasil se fragmentaram, já não existe aquela obrigatoriedade de pensar o projeto nacional ou a consciência nacional, e há uma crise sobre os imaginários do futuro. Por outro lado, creio que há uma nova autoria em pauta. A favela é retratada também pelos próprios favelados, o lugar de onde se fala e em nome de quem se fala é um aspecto importante da produção contemporânea.

Na literatura, quais seriam os expoentes dessa corrente realista? A propósito, gostaria também que comentasse a intervenção de Ferrez no affair do roubo do Rolex do Luciano Huck, escrevendo um texto na Folha de S. Paulo no qual se coloca no lugar dos assaltantes. Você cita também Paulo Lins, que produz um depoimento poderoso em Cidade de Deus, transformado em filme, mas também Marçal Aquino, que trabalha muito o gênero policial e é parceiro constante de Beto Brant, além de Patricia Melo, discípula de Rubem Fonseca, considerado o nosso mestre do gênero. O que aproxima esses escritores, e o que os afasta entre si?

Não li o texto do Ferrez, mas li a carta do Luciano Huck. Compreendo seu desalento, simpatizo com sua aflição perante o absurdo de se perder uma vida por um mero objeto, mas o que não está explicitado na carta é o seu espanto de perceber que, mesmo sendo uma celebridade midiática, ele não está a salvo da violência corriqueira que nos assola cotidianamente. Quanto aos escritores mencionados, creio que Paulo Lins tem uma prosa variada que não se enquadra plenamente num gênero específico. Já Marçal Aquino e Patrícia Melo são mestres contemporâneos de uma literatura urbana, coloquial, cinematográfica, concisa, rápida e antenada aos imaginários atuais .

Em seu texto, você comenta a polêmica surgida com Cidade de Deus, em especial a intervenção da Ivana Bentes e sua discussão sobre a “Estética e a Cosmética da Fome”, debate sobre as duas maneiras de representar a miséria, a favela e a violência, a de Fernando Meirelles e a do Cinema Novo. Desta vez, com Tropa de Elite, a discussão seguiu outro rumo, sobre se o filme seria fascista, de direita, ou nada disso – se apenas apresentaria um retrato sem retoques da realidade tratada. Como vê esse deslocamento de discussões?

Tropa de Elite é narrado sob a perspectiva do comandante do Bope, o capitão Nascimento. Este personagem está à beira do colapso, tem ataques de pânico, possui uma incorruptível vontade de realizar sua missão, mas entrevê o mundo numa ótica simplificada e simplificadora. Não creio que a intenção do diretor tenha sido colocá-lo como um herói, mas revelar o terrível emparedamento destes policiais, a nossa hipocrisia em relação ao uso do poder policial, a brutalidade das circunstâncias e as bárbaras práticas de extermínio de ambos os policiais e os narcotraficantes. A opção de narrar a guerra sob a perspectiva do policial é brilhante e absolutamente necessária. Entretanto, mesmo levando em consideração o foco narrativo do personagem, a retratação dos estudantes de classe média, dos moradores da favela, da ação das ONGs me parece bastante redutora. É fundamental tecer a conexão entre o consumidor e a violência social provocada pelo consumo das drogas, mas por que não se questionou, em momento algum, a legalização das drogas? Por que no debate de sala de aula onde lêem Foucault e reclamam do assédio da polícia este tema não veio à tona? Não existem filmes que sejam “um retrato sem retoques da realidade tratada”. Existem opções estéticas e escolhas.

Você entende que essas representações contemporâneas do real, sejam na fotografia, na literatura ou no cinema, tendem a ser progressistas, do ponto de vista político, ou ficam aquém, quando comparadas às manifestações de décadas anteriores?

Estas manifestações são muito variadas entre si justamente porque não há uma ideologia em comum. O que nelas me parece central é a busca por um público amplo, o distanciamento tanto dos cânones letrados quanto do experimentalismo vanguardista. Como toda produção, as imagens e narrativas do choque da realidade mobilizam e também perdem seu poder de persuasão na medida em que envelhecem e são banalizadas pelo déjà vu. Mas o real e a realidade nos importam porque queremos ter algum agenciamento no mundo. Este agenciamento não tem mais o caráter abstrato e universalista das promessas do futuro modernista. Ele é ao mesmo tempo pontual e global; depende de políticas muito específicas e ao mesmo tempo de uma agenda de alcance global. Por exemplo, a nova visibilidade midiática dos “favelados”, “excluídos”, “marginalizados”, possui tanto uma dimensão política de agenciamento quanto também indica a lógica de circulação e do consumo da cultura do espetáculo. A questão é equacionar ambos. Sobretudo, a visibilidade midiática é parte essencial do novo espaço público contemporâneo.

O Choque do Real
Beatriz Jaguaribe
Rocco
240 págs., R$ 29